A tabuleta de néon dizia “Café do Cais” e parpadeava como se também estivesse com sono. Era um daqueles restaurantes à beira da estrada que sobrevivem por teimosia: café quente requentado, música antiga no jukebox e um cheiro constante a gordura que gruda na roupa.
Carolina Mendes já estava há seis horas no turno. Tinha os pés a arder, o avental manchado de molho e um sorriso automático que surgia mesmo quando, por dentro, só queria sentar-se por cinco minutos.
Naquela noite, porém, o sorriso começou a doer.
Viu-os entrar da cozinha: três homens com jaquetas de couro, botas pesadas, risadas altas. Não eram clientes normais. Andavam como se o espaço lhes pertencesse, como se o mundo lhes devesse um lugar.
“Olha só, que serviço simpático”, disse o da barba rala, empurrando a porta com o ombro.
Carolina baixou o olhar e continuou com o seu trabalho. Naquele sítio, às vezes era melhor não ouvir. Às vezes, era melhor tornar-se invisível.
Mas a invisibilidade não funciona quando te transformam num alvo.
Os homens sentaram-se nos bancos junto ao balcão. Não pediram logo. Primeiro, observaram-na. Depois, começaram a falar sem falar diretamente: comentários carregados de risos, assobios, frases que pareciam piadas para quem não entendia o veneno.
“Ó menina, não tens nada mais quente que esse café?”, soltou um, e os outros riram-se.
Carolina apertou a bandeja com força. Responder podia ser gasolina; ignorar podia ser provocação. Escolheu o segundo, como sempre.
“O que vão querer?”, perguntou, tentando soar neutra.
“O que tu nos recomendares, coração”, disse o que tinha uma cicatriz na sobrancelha. “Mas vem cá mais perto.”
Carolina sentiu o instinto antigo de ficar tensa. Olhou em volta, procurando o Sr. Manuel, o cozinheiro, ou a Dona Amélia, a dona do café. O Sr. Manuel estava ocupado na chapa, a Dona Amélia contava trocos na caixa registadora. O restaurante estava meia vazio: camionistas a comerem em silêncio, um casal de idosos a partilhar pão, dois estudantes com mochilas. Gente cansada, gente que só queria acabar o dia.
Gente que, por medo, aprendera a não se meter.
Carolina virou-se para pegar na cafeteira. Nesse movimento, sentiu um dos homens levantar-se e aproximar-se demasiado.
Cercaram-na sem que ninguém notasse à primeira: ela presa entre o balcão e os bancos; eles a rodear-lhe como se fosse uma brincadeira. Uma brincadeira para eles. Uma armadilha para ela.
“Não fujas, linda”, sussurrou o da cicatriz, perto do seu ouvido. Cheirava a álcool e tabaco. “Só queremos conversar.”
Carolina engoliu em seco.
“Por favor… deixem-me trabalhar.”
A mão de um deles pousou-lhe na cintura como se tivesse direito. Ela afastou-se, tentando chegar à cozinha, mas o da barba bloqueou-lhe o caminho com um sorriso.
“Ah, tão sensível”, disse, divertido. “Assustas-te assim tão fácil?”
A risada deles aumentou, e com ela veio o tremor: não porque Carolina fosse frágil, mas porque o corpo reconhece o perigo antes da cabeça. A bandeja escapou-lhe um pouco. O café derramou sobre o balcão, quente, como um pequeno acidente que gritava o que ela não podia dizer.
“Olha o que fizeste!”, zombou um deles, e então agarrou-lhe o braço.
Não puxou com força para a mover. Apertou com força para a marcar.
Carolina soltou um gemido abafado. O braço ardia. Os olhos ardiE então, no exato momento em que o mundo parecia desabar para Carolina, um homem sentado no canto do café levantou-se calmamente, seguido do seu leal pastor alemão, e com um simples olhar silenciou a sala inteira.





