Um milionário regressou a casa após uma missão de três meses para ver a sua filha… e desmoronou-se quando viu o que estava a acontecer no seu próprio quintal.
O voo de Singapura pareceu interminável, mas a adrenalina manteve Sebastião Castro acordado. Três meses — noventa dias de negociações, contratos e vitórias nas salas de reuniões que fortaleceram o seu império, mas roubaram-lhe a única coisa que não podia comprar: tempo com a sua filha.
Enquanto o carro blindado deslizava pelas ruas familiares em direção à propriedade dos Castro, Sebastião não pensava em fusões ou manchetes. Pensava em Leonor — oito anos, olhos brilhantes como os da falecida mãe, a criança que ainda lhe parecia o único verdadeiro lar. Imaginava-a a correr pelo hall, a abraçá-lo, com um cheiro suave a baunilha e lápis de cor. Até comprou um urso de peluche gigante no aeroporto, só para a ver sorrir.
“Senhor,” o motorista, Rui, disse baixinho, “chegámos.”
Os portões de ferro abriram-se. A mansão erguia-se no pôr do sol como um postal: relvado perfeito, fontes a cantar, pedra polida. E ainda assim, algo parecia errado. A propriedade estava demasiado silenciosa. Nada de brinquedos na varanda. Nada de música. Nada de passos apressados. E, acima de tudo, nenhuma Leonor à espera à porta.
Sebastião entrou e sentiu o frio do ar condicionado, mas não era só o vento. A casa cheirava diferente. Não a lar — não a pão acabado de sair do forno, nem às flores frescas que Leonor costumava apanhar. Agora cheirava a óleos caros e vazio. O retrato da família, onde Sebastião e Leonor riam, tinha desaparecido. No seu lugar, pendia uma enorme pintura a óleo de Verónica — a sua atual esposa — impecável e distante, como se fosse dona das paredes.
“Maria?” chamou Sebastião.
A empregada surgiu, torcendo o avental com mãos trémulas. Os olhos estavam vermelhos e ela não conseguia olhá-lo nos olhos.
“Bem-vindo a casa, senhor,” sussurrou.
“Onde está a Leonor?”
Maria engoliu em seco. Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto antes de conseguir contê-la. Apontou para a janela do quintal, o dedo a tremer.
“Lá fora, senhor… ela está… ocupada.”
O instinto paterno — cru, imediato — acendeu-se no peito de Sebastião. Não fez mais perguntas. Dirigiu-se às portas de vidro e abriu-as de rompante.
E o que viu partiu algo dentro dele.
No meio do jardim imaculado, sob o sol forte, Leonor lutava com um saco de lixo preto quase do seu tamanho. Usava uma camisola demasiado grande, com manchas de pó nos braços, suor e lágrimas secas no rosto. As mãos estavam em carne viva, marcadas pela corda.
A poucos metros, debaixo de um guarda-sol de design, Verónica reclinava-se com um café gelado, a observar como se supervisionasse uma tarefa doméstica — aborrecida, indiferente, cruelmente calma.
“LEONOR!” A voz de Sebastião ecoou como um grito.
Assustada, Leonor soltou a corda e caiu de joelhos. Quando o viu, o medo nos seus olhos não desapareceu — transformou-se em pânico.
“Pai!” choramingou. “Desculpa — ainda não acabei. Por favor, não fiques zangado…”
Sebastião correu para ela e ajoelhou-se, puxando-a para os braços. Ela parecia leve demais. Magra demais. O corpo tremia contra o seu peito.
“O que estás a fazer aqui?” perguntou, tentando manter a voz firme. “Quem te mandou fazer isto?”
Leonor agarrou-se à sua camisa, deixando marcas de terra no tecido caro.
“Tenho que acabar,” soluçou. “Ela disse que, se não limpar o quintal todo, não posso beber leite. Estou com tanta sede. Só quero um bocadinho de leite.”
Leite.
A palavra atingiu Sebastião como um martelo. A sua filha — a sua criança — tratada como se tivesse que merecer comida.
Ergueu devagar o olhar. O calor do reencontro esvaiu-se do seu rosto, deixando algo mais sombrio no seu lugar.
Verónica pousou a chávena com delicadeza e levantou-se, alisando o vestido como se fosse um incómodo menor.
“Não sejas dramático,” disse com um sorriso fino. “Estou a ensinar-lhe disciplina. Tu mimas-te-a demais. Um pouco de estrutura nunca fez mal a ninguém.”
Sebastião levantou-se com Leonor nos braços. Olhou para a mulher com quem casara, acreditando que protegeria a sua filha — e viu uma estranha com uma máscara perfeita.
“Isto não é disciplina,” disse baixinho. “Isto acaba agora.”
Verónica riu-se, seca e confiante. “Acaba? Estiveste ausente três meses. Já nem sabes como as coisas funcionam. Esta casa também é minha. E se achas que podes entrar e reescrever as minhas regras, vais desiludir-te.”
Sebastião não respondeu. Enquanto carregava Leonor para casa, notou algo que o gelou mais que o ar condicionado alguma vez conseguiria.
Verónica não estava assustada.
Estava a sorrir.
Lá em cima, Sebastião levou Leonor para o quarto — e sentiu o coração parar outra vez. O quarto que antes era colorido com livros e brinquedos estava vazio. Nada de bonecas. Nada de livros de histórias. Uma cama perfeitamente feita e uma secretária vazia. Parecia mais uma cela que um quarto de criança.
“Pai… tenho medo,” sussurrou Leonor, escondendo o rosto no seu pescoço.
“Já acabou,” prometeu Sebastião, embora a palavra soasse frágil. “Estou aqui. Ninguém te vai magoar outra vez.”
Maria trouxe um kit de primeiros socorros e comida. Enquanto Sebastião limpava as marcas nas mãos de Leonor, Maria finalmente falou — hesitante, como se esperasse permissão para contar a verdade.
Verónica despedira funcionários de confiança. Isolara Leonor dos amigos. Restringira o acesso ao telemóvel. Transformara o dia a dia em tarefas, isolamento e medo, tudo em nome da “humildade.”
Naquela noite, Sebastião não dormiu. Ao amanhecer, foi ao escritório verificar as contas — só para descobrir as palavras-passe alteradas. O arquivo estava vazio. Quando tentou aceder aos fundos, o ecrã mostrou:
ACESSO NEGADO. CONTAS BLOQUEADAS POR ORDEM JUDICIAL.
O telemóvel tocou. Helena Pereira, a sua advogada de longa data, soava urgente.
“Sebastião, tens que sair dessa casa. O irmão da Verónica, Guilherme, já convocou uma reunião de direção. Apresentaram um pedido médico alegando que tiveste um colapso no estrangeiro. Estão a tentar declarar-te incompetente — para gerir os bens e para cuidar da Leonor. A Verónica pediu custódia temporária e controlo total.”
O sangue de Sebastião gelou. Isto não era só crueldade.
Era um golpe.
Lá em baixo, a televisão anunciava. Um canal local mostrava uma foto pouco lisonjeira do aeroporto, com uma manchete a insinuar instabilidade. Verónica apareceu no ecrã, vestida de branco, representando a dor, falando sobre “oNo fim, enquanto o sol se punha sobre o Novo Amanhecer, Sebastião abraçou Leonor, sabendo que, por mais longa que fosse a noite, a luz sempre voltaria.





