**Capítulo 1: O Fio que se Desfaz**
O churrasco à beira da piscina devia ser uma tapeçaria de alegria—família reunida, o calor generoso do sol de verão, o cheiro das salsichas a grelhar e o riso dos meus netos a ecoar pela água. Passei a manhã a preparar tudo com cuidado, um palco pronto para memórias felizes. Esfreguei o pátio até as pedras brilharem, arrumei toalhas fofas de todas as cores e enchi um cooler azul com os pacotinhos de sumo que a Matilde adora. O meu filho, Tiago, chegou com a mulher, Joana, e os dois filhos quando o sol estava no seu auge. Mas, no instante em que saíram do carro, senti uma dissonância cortar a melodia alegre do dia.
Enquanto o irmão mais velho, Bernardo, disparou do carro direto para a piscina, a minha neta de quatro anos, Matilde, saiu devagar. Os ombrinhos curvados, a cabeça baixa, como se carregasse um peso invisível demais para o seu corpinho. Apertava um coelhinho de peluche desgastado, as orelhas frágeis de tanto carinho ansioso.
Aproximei-me com o seu fato de banho de flamingos nas mãos, o meu sorriso de repente frágil. “Querida,” disse, agachando-me à sua altura, “queres ir mudar? A água está perfeita hoje.”
Ela não olhou para mim. Os olhos fixos num fio solto na bainha do vestido, os dedinhos a torcê-lo sem parar. Uma voz quase inaudível escapou-lhe: “Dói-me a barriga…”
Uma conhecida dor de preocupação apertou-me o peito. Estendi a mão para afastar um fio de cabelo loiro do seu rosto, um gesto que repetimos mil vezes. Mas desta vez, ela recuou. Foi um movimento pequeno, quase impercetível, mas senti-o como um golpe. Afastou-se como se esperasse uma chicotada, não um carinho. Aquele gesto assustou-me mais do que qualquer palavra. A Matilde sempre fora uma criança afetuosa—a primeira a atirar-se para os meus braços, a primeira a puxar-me a manga para lhe ler uma história. Esta versão vazia da minha neta era uma estranha.
Antes que pudesse perguntar mais, a voz de Tiago cortou o ar atrás de mim. “Mãe,” disse, e aquela única palavra foi afiada, fria, carregada de um tom de ordem que não ouvia desde que ele era um adolescente rebelde. “Deixa-a em paz.”
Virei-me, a testa franzida. “Não a estou a chatear, Tiago. Só quero saber o que se passa.”
Joana juntou-se a ele, uma parede imponente de união parental. O rosto tenso, o sorriso forçado, sem chegar aos olhos. “Por favor,” disse, o tom doce como mel envenenado, “não interfiras. Ela está a fazer teatro. Se lhe dermos atenção, nunca mais para.”
Teatro? A palavra pairou no ar, feia e errada. Olhei de novo para a Matilde, para os dedos que se torciam sem parar, o corpo pequeno a transmitir uma tristeza tão profunda que quase se via. Ela não estava a fazer teatro—estava a afogar-se em algo que eu não conseguia ver.
Tentei manter a voz calma, um mar sereno. “Só quero ter a certeza de que ela está bem.”
Tiago aproximou-se, a sombra dele a cair sobre mim. Baixou a voz para um sussurro, um aviso, não um conforto. “Ela está bem. Deixa estar. Não arranjes confusão.”
A ameaça implícita pairou entre nós, e uma onda de fúria gelada percorreu-me. Mas, pela Matilde, recuei. Afastei-me devagar, uma retirada que pareceu uma traição. Os meus olhos, no entanto, não a largavam. Ela não se mexia. Não via o Bernardo a chapinhar na piscina. Apenas ali sentada, uma ilha solitária num mar de festa forçada, uma menina que parecia acreditar que não tinha lugar naquele dia. E, enquanto observava o meu filho e a nora a rirem com um brilho tenso que agora parecia grotesco, uma pergunta assustadora formou-se na minha mente.
O que estavam eles a tentar esconder com tanto medo?
**Capítulo 2: Uma Porta Aberta**
A festa continuou, uma pantomina oca de diversão familiar. O cheiro a cloro e protetor solar misturava-se com o aroma das salsichas, aromas que sempre me trouxeram felicidade. Hoje, reviravam-me o estômago. Movi-me como um autómato—a virar a carne, a servir bebidas, a sorrir a piadas que não ouvi—mas todo o meu ser era um carreto de ansiedade, os sentidos sintonizados na menina silenciosa à beira do pátio. Tiago e Joana agiam como se nada estivesse errado, o riso demasiado alto, os movimentos demasiado bruscos. Estavam a representar, e eu era a plateia relutante.
De vez em quando, o meu olhar voltava para a Matilde. Uma estátua de tristeza. Numa altura, vi o Bernardo correr para ela e oferecer-lhe a pistola de água. Ela abanou a cabeça, nem sequer olhou para ele. Joana chamou da piscina: “Deixa-a, Bernardo! Ela está a fazer birra.” A crueldade casual daquela frase foi como uma punhalada.
Tentei uma última abordagem, mais suave. Levei-lhe um pratinho com uma fatia de melancia cortada em estrela, como ela gostava. “Toma, querida,” disse, colocando-o ao seu lado. “Só um bocadinho.”
Os olhos de Tiago encontraram os meus do outro lado do jardim. Um aviso silencioso e furioso. Segurei o seu olhar por um instante, o coração a martelar contra as costelas, antes de me afastar. A Matilde não tocou na melancia.
Uma hora depois, desculpei-me para ir lá dentro, precisando de um momento longe da tensão sufocante. A casa era um santuário fresco e silencioso, o zumbido do ar condicionado um barulho reconfortante no corredor. Entrei na casa de banho e fechei a porta, encostando-me a ela para respirar. O meu reflexo no espelho mostrava uma mulher que mal reconhecia—o rosto marcado pela preocupação, os olhos nublados por um medo que ainda não tinha nome. Lavei as mãos, a água fria um choque pequeno que pouco fez para me clarear a cabeça.
Quando me virei, o coração saltou-me para a garganta.
A Matilde estava ali, no vão da porta, um pequeno fantasma que entrara sem fazer barulho.
O rostinho pálido, as mãos a tremer tanto que o coelhinho que apertava parecia vibrar. Olhou para mim, os olhos azuis muito abertos, poços sem fundo de um medo tão adulto que não tinha lugar num rosto de criança. Seguira-me, procurando refúgio no único sítio onde os pais não a viam.
“Avó…” sussurrou, a voz um fio frágil e trémulo. “Na verdade… é a Mãe e o Pai…”
E então, como se aquelas palavras tivessem rebentado a barreira que segurava tudo, desatou a chorar em silêncio, convulsivamente.
**Capítulo 3: A Forma de um Segredo**
Não hesitei. Num instante, estava de joelhos, puxando a Matilde suavemente para os meus braços. Tive cuidado para não a apertar muito, como se fosse feita de vidro soprado. Ela agarrou-se a mim, o corpo pequeno a tremer,E no silêncio daquela casa, enquanto segurava a Matilde e prometia protegê-la para sempre, percebi que a verdade, por mais dolorosa que fosse, tinha finalmente rasgado o véu da mentira, e agora, juntas, enfrentaríamos o que viesse.





