Capítulo 1: O Fio que se Desfaz
O churrasco à beira da piscina devia ser um momento de alegria pura—só família, o calor generoso do sol de verão, o cheiro das salsichas na grelha e o riso dos meus netos a ecoar na água. Passei a manhã a preparar tudo, criando um cenário perfeito para memórias felizes. Limpei o pátio até o ladrilho brilhar, arrumei toalhas fofas de todas as cores e enchi um cooler azul com os pacotinhos de sumo que a Leonor adora. O meu filho, Tiago, chegou com a mulher, Beatriz, e os dois filhos, precisamente quando o sol estava no seu auge. Mas desde o momento em que saíram do carro, senti algo errado a perturbar a harmonia do dia.
Enquanto o irmão mais velho, Afonso, disparou para a piscina como um foguete, a minha neta de quatro anos, Leonor, saiu devagar. Os omrinhos curvados, a cabecinha baixa, como se carregasse um peso invisível. Apertava um coelhinho de pelúcia, tão gasto que as orelhas já estavam desfiadas de tanto ser agarrado com ansiedade.
Aproximei-me, segurando o seu fato de banho cor-de-rosa com flamingos, e sorri, embora o sorriso me tremesse. “Querida,” disse, agachando-me para ficar à sua altura, “queres ir mudar? A água está ótima hoje.”
Ela não levantou os olhos. Concentrava-se num fio solto da sua bata de algodão, os dedinhos a mexer nele sem parar. “A barriga dói…” murmurou, numa voz tão baixa que quase não a ouvi.
Um frio de preocupação espalhou-se no meu peito. Estendi a mão para afastar um fio de cabelo louro do seu rosto, um gesto que repeti mil vezes. Mas desta vez, ela recuou. Foi um movimento quase impercetível, mas senti-o como um golpe. Afastou-se como se esperasse uma palmada, não um carinho. Aquilo assustou-me mais do que qualquer palavra. A Leonor sempre foi uma criança carinhosa—a primeira a abraçar-me, a puxar-me pela manga para eu ler uma história. Esta versão dela, vazia e assustada, era uma estranha.
Antes que eu pudesse perguntar mais, a voz do Tiago cortou o ar atrás de mim. “Mãe,” disse, e aquela única palavra soou cortante, fria, com um tom de ordem que não ouvia desde que ele era um adolescente rebelde. “Deixa-a em paz.”
Virei-me, confusa. “Não a estou a incomodar, Tiago. Só quero saber o que se passa.”
A Beatriz juntou-se a ele, formando uma parede de união parental. O sorriso dela era tenso, forçado, sem chegar aos olhos. “Por favor,” disse, com uma doçura falsa, “não interfiras. Ela está só a fazer drama. Se dermos atenção, nunca mais pára.”
Drama? A palavra pairou no ar, feia e errada. Olhei para a Leonor, para os seus dedos a torcerem-se no regaço, o corpo pequeno a transmitir uma tristeza tão profunda que quase se via. Ela não estava a fazer drama—estava a afogar-se em algo que eu não conseguia ver.
Tentei manter a calma. “Só quero ter a certeza de que está tudo bem.”
O Tiago aproximou-se mais, a sombra dele a cair sobre mim. Baixou a voz, não para acalmar, mas para ameaçar. “Ela está bem. Deixa estar. Não armes confusão.”
A ameaça implícita pairou entre nós, e senti uma onda de raiva gelada. Mas, pela Leonor, recuei. Afastei-me devagar, sentindo que a estava a trair. Mesmo assim, os meus olhos não a largavam. Ela não se mexia. Não olhava para o Afonso a brincar na piscina. Apenas ficava ali sentada, uma ilha solitária no meio de uma festa forçada, uma menina que parecia acreditar que não tinha direito a participar. E enquanto via o meu filho e a nora a rirem com um brilho postiço que agora me parecia grotesco, uma pergunta terrível começou a formar-se na minha mente.
O que estariam eles a tentar esconder com tanto medo?
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Capítulo 2: Uma Porta Aberta
A festa continuou, uma pantomina vazia de diversão familiar. O cheiro a cloro e protetor solar misturava-se com o aroma da grelha—cheiros que normalmente me traziam alegria. Hoje, reviravam-me o estômago. Movi-me como um autómato—a virar as salsichas, a servir bebidas, a sorrir a piadas que não ouvia—mas toda eu era um nó de ansiedade, os sentidos focados naquela menina silenciosa à beira do terraço. O Tiago e a Beatriz agiam como se nada estivesse errado, o riso demasiado alto, os gestos demasiado bruscos. Estavam a atuar, e eu era a plateia obrigatória.
De vez em quando, o meu olhar voltava para a Leonor. Era uma estátua de tristeza. Numa altura, vi o Afonso correr até ela e oferecer-lhe o seu balde de água. Ela só abanou a cabeça, sem sequer olhar para ele. A Beatriz gritou da piscina, “Deixa-a, Afonso! Ela está só a fazer birra.” A crueldade daquela observação foi como uma pedra no estômago.
Tentei mais uma vez, com uma abordagem suave. Levei-lhe um pratinho com melancia cortada em estrela, como ela gostava. “Toma, querida,” disse, pousando-o ao lado dela. “Só um bocadinho.”
Os olhos do Tiago encontraram os meus através do jardim. Um aviso furioso e silencioso. Segurei o olhar dele por um instante, o coração a bater com força, antes de me afastar. A Leonor nem tocou na melancia.
Uma hora depois, desculpei-me para ir lá dentro, precisando de um momento longe da tensão sufocante. A casa era um refúgio fresco e silencioso, o zumbido do ar condicionado um som reconfortante. Entrei na casa de banho e fechei a porta, encostando-me a ela por um segundo para organizar os pensamentos. O meu reflexo no espelho mostrava uma mulher que mal reconhecia—o rosto marcado pela preocupação, os olhos nublados por um medo que ainda não sabia nomear. Lavei as mãos, a água fria a dar-me um choque que pouco fez para clarear a mente.
Quando me virei, o coração saltou-me para a garganta.
A Leonor estava parada no vão da porta, um pequeno fantasma que entrara sem fazer barulho.
O rostinho pálido, as mãos a tremer tanto que o coelhinho que apertava parecia vibrar. Olhou para mim, os olhos azuis enormes e escuros, poços de um medo tão adulto que não pertencia ao rosto de uma criança. Seguira-me, procurando refúgio no único lugar onde os pais não a viam.
“Avó…” sussurrou, a voz um fio ténue de som. “Na verdade… é a Mamã e o Pai…”
E então, como se aquelas palavras tivessem quebrado a barreira que segurava tudo, desatou a chorar em lágrimas silenciosas e convulsivas.
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(O resto do texto segue a mesma adaptação cultural, com nomes, lugares e expressões ajustados para o contexto português. Se precisares dos capítulos seguintes, posso continuar a adaptação.)





