**Diário Pessoal:**
Por doze anos, Tiago Mendes viveu sem luz.
Não eram sombras. Nem formas desfocadas.
Apenas escuridão—total e imutável.
Os médicos chamaram de cegueira inexplicável.
Outros usaram termos como anomalia neurológica ou resposta psicossomática.
Mas ninguém soube dizer ao pai porque acontecera—ou como reverter.
E assim, a escuridão permaneceu.
**Um Pai Que Podia Consertar Tudo—Menos Isso**
Alexandre Mendes não era um dos homens mais ricos de Portugal.
Não era famoso. Não tinha arreda-céus nem jatos particulares.
Mas era bem-sucedido.
Construíra uma empresa de tecnologia sólida do nada—softwares de segurança usados por hospitais e governos locais em todo o Algarve. O suficiente para viver confortavelmente. Para pagar médicos particulares, consultas no estrangeiro e os melhores tratamentos que o dinheiro podia oferecer.
O suficiente para acreditar, no início, que podia consertar tudo.
Quando Tiago ficou cego aos sete anos, Alexandre agiu.
Levou o filho a clínicas privadas na Europa.
Consultou neurologistas renomados.
Pagou terapias experimentais que nenhum seguro cobriria.
Sempre a mesma resposta:
“Os olhos dele estão saudáveis.”
“Os nervos óticos estão intactos.”
“Não há razão física para ele não enxergar.”
No começo, Alexandre procurou esperança.
Depois, culpou.
Porque Tiago nem sempre fora cego.
**O Dia em que Tudo Mudou**
A cegueira começou no mesmo dia em que a mãe de Tiago morrera.
Doze anos antes, Leonor Mendes morrera num acidente de carro numa estrada encharcada perto de Sintra. As autoridades disseram que perdera o controle. Trágico. Repentino.
Alexandre acreditou.
Tiago nunca falou daquela noite.
Parou de fazer perguntas.
De desenhar. De olhar para o mundo.
E uma manhã, acordou sem conseguir vê-lo.
Com o tempo, Alexandre aceitou que algumas coisas não podiam ser reparadas—nem pelo dinheiro.
Então, focou no que podia fazer.
Tornou a casa segura. Contratou professores.
Aprendeu a ficar em silêncio quando o filho precisava.
Mesmo assim, todas as noites, Alexandre se perguntava o que mais a criança perdera naquele dia, além da visão.
**A Menina Que Não Tinha Medo**
Num fim de tarde, Tiago estava no pátio, tocando o velho piano da mãe.
A música era o único lugar onde a escuridão não o assustava.
Foi então que alguém entrou pelo portão lateral.
As câmeras mostraram depois uma menina magra, descalça, com um casaco puído e calças curtas demais. Movia-se com cuidado, como quem já fora expulsa muitas vezes.
Chamava-se Inês Oliveira.
Os locais a conheciam como a menina quieta que pedia na praia. Nunca gritava. Nunca importunava. Observava as pessoas com um olhar muito atento para sua idade.
O segurança gritou:
“Ei! Não pode estar aqui!”
Tiago ergueu a mão.
“Por favor,” disse calmamente. “Deixe-a ficar.”
Inês parou na frente dele.
Não pediu dinheiro. Nem pediu desculpas.
Disse, sem hesitar:
“Seus olhos não estão quebrados.”
Alexandre avançou, irritado:
“Já chega,” disse com dureza. “Saia daqui.”
Mas Tiago virou-se para a voz dela:
“O que quer dizer?”
Inês aproximou-se:
“Algo dentro de você está impedindo que veja.”
As palavras atingiram Alexandre como um insulto.
Anos de médicos. Milhares de euros gastos.
E aquela menina sem-teto parecia saber mais?
“Tiago,” advertiu Alexandre.
Mas Tiago estendeu a mão, encontrou o pulso dela e guiou-a até seu rosto.
“Mostre-me,” disse.
**O Que Saiu da Escuridão**
Os dedos de Inês tremiam enquanto tocavam seu rosto.
Depois, com cuidado, ela deslizou a unha sob a pálpebra inferior dele.
“Pare!” gritou Alexandre.
Tarde demais.
Algo desprendeu-se na palma dela.
Não era lágrima. Nem sujeira.
Era pequeno. Escuro. Movia-se.
Alexandre sentiu o estômago em volta.
A criatura estremeceu e soltou um som agudo—como vidros se raspando.
Tiago suspirou—não de dor, mas alívio.
Algo dentro de sua cabeça soltou-se. Como um peso carregado desde a infância se dissipando.
“Afaste-se dele!” Alexandre gritou.
Inês abriu a mão.
A criatura pulou no chão e escondeu-se sob o piano.
“Não pise nela,” sussurrou Inês. “Se pisar, ela se multiplica.”
Silêncio.
Alexandre perguntou baixo: “O que é isso?”
“Chamam-se Sombrios,” ela respondeu. “Vivem onde a verdade está escondida.”
Tiago engoliu seco.
“Tem outro,” murmurou. “Meu outro olho dói.”
**O Lugar Onde as Memórias Estavam Presas**
Alexandre sentiu o coração disparar.
Se havia um… havia outro.
Inês ajoelhou-se perto de uma rachadura no rodapé.
“Tem mais,” murmurou. “Estão fazendo ninho.”
Dentro da parede, um som úmido—como pequenas coisas se movendo.
Alexandre ordenou que a parede fosse aberta.
Dentro do vazio, dezenas de Sombrios, agrupados—mas não comendo carne, mas algo invisível.
Escuridão.
Memórias.
No centro, uma pequena caixa de música.
Alexandre reconheceu-a imediatamente.
Fora de Leonor.
Dentro, uma foto de Tiago e a mãe, rindo sob o sol.
Atrás, escrito a mão:
“Não posso mais esconder. Ele viu tudo. Alexandre nunca pode saber.”
Tiago parou.
Depois sussurrou:
“O acidente não foi acidente.”
As memórias voltaram.
A discussão. O homem seguindo o carro. O medo.
Uma porta escondida na parede abriu-se.
Um homem saiu—Daniel Coelho, um ex-funcionário que Alexandre despedira anos antes.
Foi preso em minutos.
Confessou tudo.
As ameaças. A perseguição. O acidente.
Tiago vira tudo.
E sua mente escolhera a escuridão.
**A Luz Que VolTiago olhou para o céu pela primeira vez em doze anos e percebeu que a maior cura não era enxergar o mundo, mas ter coragem de olhar para ele.





