O meu nome é Leonor Albuquerque e esta manhã sentei-me à frente das pessoas que me deram a vida, a vê-las tentar meticulosamente apagá-la.
Estávamos separados por seis metros de carpete industrial na Sala 14B do Tribunal de Lisboa, um espaço que cheirava a cera de limão e ansiedade reciclada. A luz fluorescente zumbia por cima de nós, clínica e cortante, projetando sombras que faziam toda a gente parecer esquelética. Enquanto o oficial de justiça lia o número do processo num tom monocórdico, eu estudava o outro lado.
Do lado do autor estavam Carlos e Margarida Albuquerque — os meus pais.
Do lado da defesa, estava eu.
Estavam a processar-me por fraude. O processo era uma obra-prima de ficção criativa, alegando que eu tinha roubado a identidade de um veterano falecido, falsificado documentos para receber benefícios que não merecia e construído toda a minha vida adulta sobre uma mentira.
Nem sequer olharam para mim. Nem uma vez. Ficaram a olhar em frente, posturas rígidas de indignação justificada.
Não me encolhi quando o advogado deles — um tipo bem-vestido da Avenida da Liberdade chamado Sr. Mendes — apresentou as suas provas. Falou da ausência de fotos militares na nossa sala de estar. Da falta de registos públicos. Do facto de ninguém no círculo social deles conseguir confirmar que eu alguma vez tinha vestido um uniforme.
“Isto é um caso de delírio”, declarou Mendes, a passear à frente do juiz. “Uma filha desesperada por atenção, a inventar uma fantasia para explorar recursos do Estado e envergonhar uma família respeitável.”
Fiquei em silêncio, as mãos cruzadas em cima da mesa. O meu uniforme não estava no meu corpo; estava dobrado em casa num baú de cedro, a cheirar ligeiramente a naftalina e suor antigo. Mas ainda sentia a costura imaginária do emblema de combate a arder debaixo da pele. Ainda sentia o gosto metálico da poeira de Kandahar na garganta, o fio de sangue nos dedos, o tremor na voz do médico quando tomei conta das compressões torácicas na traseira de um Humvee a abanar.
Eles achavam que o meu silêncio era uma confissão de culpa. Não percebiam que o silêncio é a primeira língua de um soldado.
Foi então que a juíza falou.
Inclinou-se para a frente, a voz clara mas suave, cortando a humidade da sala.
“Reconheço a arguida”, disse.
O Sr. Mendes parou a meio passo. Os meus pais pestanejaram, confusos.
“Eu servi com ela”, continuou a juíza Ana Mota, os olhos a fixarem-se nos meus.
A sala congelou. O ar condicionado zumbiu mais alto. E, pela primeira vez em anos, a certeza absoluta no rosto dos meus pais começou a rachar.
A juíza Mota não sorriu. Apenas ajustou os óculos e olhou para o meu pai com uma expressão que podia congelar o inferno. “Sr. Albuquerque”, disse baixinho, “você acusou esta mulher de roubar honra. Antes de continuarmos, sugiro que olhe bem para a cicatriz no meu ombro direito. Porque foi a sua filha quem a cosiu enquanto os morteiros caíam sobre as nossas cabeças.”
Eu tinha dezoito anos quando saí daquela casa em Cascais. Quase sem ser adulta, a cabeça rapada para o treino, o coração a bater contra as costelas.
A despedida da minha mãe tinha sido um aceno frio à porta. Não me abraçou. Não chorou. Apenas ajustou as pérolas e voltou para o seu jogo de bridge.
O meu pai, Carlos, olhou por cima do jornal e disse: “Só não nos envergonhes, Leonor.”
Disse a mim mesma que não importava. Disse a mim mesma que estava a construir algo que nunca poderiam negar — um legado meu, forjado em disciplina e coragem. Mas a negação, descobriria, era a especialidade da família Albuquerque.
Crescer naquela casa significava ganhar afeto como quem paga a renda. O meu irmão, Tomás, jogava o jogo perfeitamente. Capitão da equipa de futebol, sorriso cativante, licenciatura em Gestão, carreira em consultoria. Ele era o tesouro da família.
Eu era o problema. A rapariga que lia demais, fazia perguntas incómodas e se recusava a sorrir nas fotos de família só para manter as aparências.
Quando me alistei, disseram aos vizinhos que era uma “fase”. Uma rebeldia dramática. Disseram que eu estava “a tirar um tempo para me encontrar” num retiro. Nunca mencionaram que me tinha alistado no Exército. Nunca perguntaram para onde tinha sido destacada.
Quando voltei três anos depois, marcada, a mancar, com costelas que ainda doíam quando chovia, não vieram ao aeroporto. Não havia fitas amarelas. Nenhum “Bem-vinda a casa”.
Cheguei à porta deles com uma mochila, uma carta de reconhecimento dobrada e uma medalha escondida debaixo da camisa.
A minha mãe olhou pelo óculo, abriu a porta a meio e disse: “Ah. Voltaste.”
Foi tudo.
Não perguntou onde eu tinha estado.
O meu pai perguntou se ainda tinha seguro de saúde.
Nunca perguntaram o que aconteceu na noite em que o comboio foi atingido. Nunca perguntaram porque é que eu estremecia com o som dos isqueiros ou porque verificava as fechaduras três vezes antes de dormir. E, certamente, não perguntaram porque é que não tinha voltado mais cedo.
Com o tempo, parei de tentar explicar. Mudei-me para um apartamento pequeno perto do rio, voluntariei-me numa clínica que não fazia perguntas e entreguei os papéis para os benefícios de veterano através de um serviço jurídico gratuito. Os benefícios que recebia — o mínimo — vinham de um ficheiro confidencial devido à natureza do trabalho da minha unidade.
Não reclamei. Apenas sobrevivi.
Mas, aparentemente, até isso era um insulto para eles.
Quando o processo chegou por correio numa manhã cinzenta de janeiro, pensei que fosse um erro. Olhei para o envelope como se fosse um artefacto alienígena. Mas lá estava, na caligrafia precisa do meu pai: *Carlos E. Albuquerque contra Leonor R. Albuquerque*.
A acusação? Fingir ser veterana. Simular *stress* pós-traumático para benefício financeiro. Manchar o nome da família.
Devia ter ficado furiosa. Devia ter gritado até a garganta sangrar. Em vez disso, ri. Um sorriso amargo, como algo a partir-se dentro do peito.
Eles não se tinham só esquecido de mim. Tinham-me reescrito. E agora, queriam que a lei terminasse o trabalho.
Entrei no tribunal no primeiro dia de audiência apenas com o casaco e o meu silêncio. Não trouxe provas. Não trouve advogado. Pensei que não precisava de provar que existia. Mas, enquanto via o advogado dos meus pais desmontar a minha vida como se fosse uma mentira, percebi o meu erro. Eles não queriam só ganhar o processo. Queriam apagar a minha história.
A sala cheirava a cera de limão e mentiras antigas.
Carlos vestia o mesmo fato que usava aos domingos na missa. Margarida trazia um vestido azul-marinho com botões de prata, o mesmo que comprara para a formatura do Tomás. Pareciam impecáveis. Credíveis. Pais preocupados com uma filha problemática e mentirosa.
O advogado deles, o Sr. Mendes, não perdeu tempo a esmiuçar-me.
“A arguida é instável”, argumentou, apontando para mim como se fosse um químico perigoso. “Inventou registos militaE quando olhei novamente o baú de cedro, percebi que a única coisa que faltava ali era a minha própria permissão para seguir em frente, sem olhar para trás.





