Faminto, entrou num restaurante para comer restos… sem saber que o dono mudaria seu destino para sempre5 min de lectura

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A cidade estava gelada. Não aquela frieza que se resolve com um cachecol ou com as mãos nos bolsos. Era um frio que entrava nos ossos, que te lembrava que estavas sozinho, sem lar, sem comida… sem ninguém.

Não aquela fome de “há horas que não como”, mas a que fica agarrada ao corpo por dias. A que faz o estômago roncar como um tambor e a cabeça girar quando te inclinas rápido demais. Fome de verdade. A que dói.

Já não comia nada há mais de dois dias. Só bebera um pouco d’água de um chafariz e mordiscara um pedaço de pão velho que uma senhora na rua me dera.

Meus sapatos estavam rotos, as roupas sujas, e o cabelo desgrenhado como se tivesse brigado com o vento.

Caminhava por uma avenida cheia de restaurantes elegantes. As luzes quentes, a música suave, as risadas dos clientes… tudo parecia um mundo distante do meu.

Atrás de cada vidraça, famílias festejavam, casais sorriam, crianças brincavam com os talheres como se a vida não pudesse machucá-las.

E eu… eu morria por um pedaço de pão.

Depois de vagar por alguns quarteirões, decidi entrar num restaurante com um cheiro divino. O aroma de carne assada, arroz quente e manteiga derretida fez-me salivar.

As mesas estavam cheias, mas ninguém me notou a princípio. Vi uma mesa recém-limpada, ainda com migalhas, e o coração pulou.

Avançei com cuidado, sem olhar para ninguém. Sentei como se fosse cliente, como se também tivesse direito de estar ali. E, sem pensar, peguei um pedaço de pão duro que ficara no cesto e levei-o à boca. Estava frio, mas para mim, era um manjar.

Com mãos trêmulas, apanhei batatas frias e tentei não chorar. Havia um naco de carne quase seco ao lado. Mastiguei devagar, como se fosse o último.

Mas, quando comecei a relaxar, uma voz grave abalou-me como um tapa:

— Ei. Não podes fazer isso.

Congelei. Engoli em seco e baixei o olhar.

Era um homem alto, impecavelmente vestido num terno escuro. Os sapatos brilhavam como espelhos, e a gravata caía perfeitamente sobre a camisa branca. Não era um garçom. Nem parecia um cliente comum.

— Des… desculpe, senhor — gaguejei, o rosto ardendo de vergonha. — É que estava com fome…

Tentei enfiar um pouco de batata no bolso, como se isso me salvasse da humilhação. Ele não disse nada. Apenas me olhou, como se não soubesse se devia zangar-se ou ter pena.

— Vem comigo — ordenou, por fim.

Recuei um passo.

— Não vou roubar nada — implorei. — Deixa-me acabar isto e eu vou embora. Juro que não faço escândalo.

Sentia-me tão pequeno, tão quebrado, tão invisível. Como se não pertencesse ali. Como se fosse apenas uma sombra incômoda.

Mas, em vez de me expulsar, ele ergueu a mão, chamou um garçom e sentou-se numa mesa ao fundo.

Fiquei parado, sem entender. Minutos depois, o garçom aproximou-se com um prato fumegante: arroz fofo, carne suculenta, legumes no vapor, uma fatia de pão quente e um copo grande de leite.

— É para mim? — perguntei, a voz trêmula.

— Sim — respondeu o garçom, sorrindo.

Olhei para o homem, que me observava da sua mesa. Não havia deboche no seu olhar. Nem pena. Apenas uma calma inexplicável.

Aproximei-me dele, as pernas bambas.

— Por que me deu comida? — sussurrei.

Ele tirou o paletó e pousou-o na cadeira, como se removesse uma armadura invisível.

— Porque ninguém deve ter de catar restos para sobreviver — disse, firme. — Come em paz. Eu dono deste lugar. E a partir de hoje, haverá sempre um prato à tua espera aqui.

Fiquei sem palavras. Lágrimas queimavam-me os olhos. Chorei. Não apenas de fome.

Chorei de vergonha. Da humilhação de me sentir menos… e do alívio de saber que alguém, pela primeira vez em muito tempo, me vira de verdade.

•••

Voltei no dia seguinte. E no outro. E no outro também.

Cada vez, o garçom cumprimentava-me com um sorriso, como se eu fosse cliente habitual. Sentava-me à mesma mesa, comia em silêncio e, ao terminar, dobrava cuidadosamente o guardanapo.

Uma tarde, ele reapareceu: o homem de terno. Convidou-me a sentar-me com ele. Hesitei, mas algo na sua voz fez-me sentir seguro.

— Tens nome? — perguntou-me.

— Leonor — respondi, baixinho.

— E idade?

— Dezassete.

Ele acenou lentamente. Não fez mais perguntas.

Depois de um tempo, disse:

— Tens fome, sim. Mas não só de comida.

Olhei-o, confuso.

— Tens fome de respeito. De dignidade. De que alguém te pergunte como estás, em vez de te ver como lixo na rua.

Não soube o que responder. Mas ele estava certo.

— O que aconteceu com a tua família?

— Morreram. A minha mãe ficou doente. O meu pai… foi-se embora com outra. Nunca voltou. Fiquei sozinha. Expulsaram-me da casa onde morávamos. Não sabia para onde ir.

— E a escola?

— Desisti no segundo ano. Tinha vergonha de ir suja. Os professores tratavam-me como um bichoEle estendeu a mão e disse: “Vem, há um lugar para ti aqui”, e naquele instante, senti que a vida, afinal, ainda guardava alguma bondade.

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