— Pai, faz parar! Está a doer-me!
O grito ecoou pelos corredores de mármore da mansão dos Ferreira.
Parecia uma folha afiada a rasgar o silêncio.
João Ferreira, o titã do imobiliário, deixou cair tudo o que tinha nas mãos.
Era um homem temido, capaz de dobrar mercados com um único telefonema.
Mas naquele momento, era apenas um pai aterrorizado, a correr para o quarto do filho.
Miguel, o seu menino de seis anos, estava encolhido na cama grande.
Os dedinhos apertavam a barriga com força desesperada.
O rosto estava encharcado de lágrimas.
O corpo tremia sem controlo.
Os gritos eram intensos, quase sem ar.
Era o quinto ataque em duas semanas.
Cinco vezes João ficara parado, inútil, a ver o filho a contorcer-se de dor.
Os melhores especialistas de Lisboa fizeram exames, análises ao sangue e ecografias.
Tudo normal. Impecável.
Nada explicava a dor.
Mas o sofrimento era inegavelmente real.
Os soluços de Miguel ecoavam no peito de João como marteladas.
As amas nunca duravam.
Algumas fugiam depois da primeira noite, murmurando sobre sombras na casa.
Outras iam-se embora consumidas pelo medo.
Agora, mais uma tremia à porta, incapaz de esconder o pânico enquanto Miguel gritava de novo.
João tentou acalmá-lo.
Um multimilionário com o mundo aos seus pés, impotente perante o que atormentava o filho.
Daria todos os negócios, todos os luxos, cada cêntimo por um minuto de alívio para Miguel.
Mas nada funcionava.
Não sabia que a salvação não viria de um médico.
Viria de uma mulher serena chamada Matilde Sousa.
João não dormia há quase dois dias quando anunciaram a nova candidata.
Era a sétima ama em três meses.
Desceu a escadaria imponente, esperando ver outra mulher tímida, pronta a desistir.
Mas ao chegar ao vestíbulo, congelou.
Junto à porta estava Matilde Sousa.
Uma mulher alta, de olhos cálidos como a terra alentejana.
Vestia roupa simples: calças escuras e uma blusa cor de creme.
Mas havia algo na sua postura.
Uma confiança sólida que parecia fora de lugar naquele mundo de mármore e medo.
Quando estendeu a mão, o aperto foi firme e quente.
— Vim para o lugar.
Disse sem nervosismo, sem desculpas, com certeza absoluta.
João leu o currículo.
Cinco anos em enfermagem pediátrica.
Dois a cuidar de crianças de famílias ricas.
Referências perfeitas.
— Demasiado perfeitas. Porque saiu do hospital? — perguntou ele.
Uma sombra passou pelo rosto dela, rápida e ilegível.
— Razões pessoais.
Olhou para ele com uma coragem a que ele não estava habituado.
— Prefiro trabalhar diretamente com as crianças.
Fez uma pausa e acrescentou:
— A dor do seu filho não me assusta, Sr. Ferreira. Já vi coisas que os médicos nem sempre conseguem explicar.
As palavras atingiram-no como um vento frio.
“Superstição outra vez”, pensou.
Quase a mandou embora naquele instante.
Mas então Miguel gritou lá em cima.
Um grito agudo, dolorido, desesperado.
Algo dentro de João partiu-se.
— Está bem — sussurrou —. Venha comigo.
Sem hesitar, Matilde seguiu-o escada acima.
Ao entrar no quarto de Miguel, a expressão dela suavizou por completo.
Ajoelhou-se junto do menino trémulo com infinita ternura.
Era o olhar de quem já carregara a própria dor e a reconhecia noutro.
Até João o sentiu: aquela mulher era diferente.
A respiração de Miguel era superficial.
O corpinho tremia sob os lençóis de algodão.
Matilde ficou ao lado dele.
As mãos pairaram sobre a barriga do menino, sem tocar, apenas a sentir.
João permaneceu aos pés da cama, dividido entre desespero e suspeita.
— A dor dele começa sempre aqui, não é? — perguntou Matilde, suavemente.
— Sim — respondeu João, com a voz rouca. — E piora cada vez.
Ela pressionou as pontas dos dedos suavemente em torno do umbigo do menino.
Lento, cuidadoso, profissional.
Miguel gemeu a princípio.
Depois, arquejou quando os dedos dela pararam num ponto baixo da barriga.
O menino abriu os olhos, escuros e apavorados.
— Aqui — sussurrou ela. — Algo está errado aqui.
O coração de João deu um salto.
Os exames não mostravam nada porque não sabiam o que procurar.
A certeza dela fez-lhe um arrepio percorrer a espinaça.
Miguel agarrou o pulso de Matilde, soltando um pequeno grito.
Ela baixou a voz, tornando-a uma melodia suave.
— Olha, olha, respira comigo. Estás seguro, meu amor. Estou aqui.
E, milagrosamente, Miguel obedeceu.
Os soluços acalmaram-se.
Os músculos tensos relaxaram sob o toque dela.
João observava, estupefacto.
Durante semanas, nenhum medicamento conseguira acalmar o filho.
Mas aquela desconhecida, com mãos gentis e coragem firme, conseguiu-o em menos de um minuto.
Quando Miguel adormeceu, exausto, Matilde levantou-se.
Não havia medo nos seus olhos, apenas determinação.
— Sr. Ferreira — disse em voz baixa. — Não lhe vou mentir.
Fez uma pausa, olhando-o fixamente.
— Isto não é uma dor normal. O seu filho precisa de ajuda que nenhum hospital pode dar.
João engoliu em seco.
— O que está a dizer?
— Estou a dizer que Miguel não está simplesmente doente. Ele está a ser atacado.
O quarto pareceu inclinar-se.
João sentiu o ar ficar denso.
— Atacado? — repetiu a palavra, pesada e irreal.
Matilde não pestanejou.
— Há algo dentro dele — disse ela. — Algo que foi colocado lá de propósito.
A voz dela não tinha dramatismo, apenas uma certeza devastadora.
João abanou a cabeça.
— Isso é impossível. O meu filho está sempre comigo ou com o pessoal.
— A confiança — interrompeu ela suavemente — é exactamente como estas coisas acontecem.
As palavras cortaram mais fundo que qualquer acusação.
João deixou-se cair na beira da cama, esfregando as têmporas.
A verdade atingiu-o em ondas para as quais não estava preparado.
Seis meses de sofrimento.
E a ideia de que alguém lhe fizera isto deliberadamente encheu-lhe o estômago de raiva.
Matilde aproximou-se.
— Ainda não sei o que é o objeto — continuou. — Mas ele move-se.
João olhou para ela.
— Cada vez que ele come, cada vez que bebe, desloca-se. Por isso é que os médicos não o viram.
Os olhos dela suavizaram-se.
— E por isso é que ele grita.
João olhou para o filho, frágil e exausto.
O peito de Miguel subia e descia, demasiado vulnerável para um mundo tão cruel.
— O que fazemos? — sussurrou João.
Matilde respirou fundo.
— Deixe-me trabalhar. Não será fácil, e terá de acreditar em coisas que não aparecem nos monitores do hospital.
Ele encontrou o olhar dela: firme, sem medo, inquebrantável.
Pela primeira vez em semanas, João sentiu algo novoE quando o sol nasceu no dia seguinte, a maldição foi quebrada, e Miguel acordou com um sorriso que iluminou a mansão inteira.





