Há muito tempo, na pacata vila de Monsanto, um homem regressou após largos anos para reencontrar a mulher que outrora deixara. Quem diria que o destino lhe reservava uma lição que nenhuma fortuna poderia comprar.
António Mendes desceu do seu carro de luxo e ficou petrificado diante da pequena casa de xisto. As flores que trazia pareciam agora uma ironia do destino. Telhas partidas, paredes descascadas, um alguidar a recolher a água da chuva — ali estava tudo o que ele prometera e nunca cumprira.
Dezoito anos antes, jurara a Leonor Almeida que voltaria rico, ergueria uma casa digna e garantiria o futuro dos filhos que ainda nem sonhavam existir. Partira com um “volto já”, mas os dias viraram anos, e o silêncio pesou mais que o arrependimento.
Quando bateu à porta, ela abriu depressa, como quem teme perder uma rara visita. Leonor surgiu, curvada sobre uma bengala de madeira, o cabelo grisalho preso num lenço, o rosto marcado pelo sol. A voz era a mesma, só que mais cansada.
“Quem procura, senhor?”
António engoliu em seco. “A Dona Leonor… conhece?”
“Sou eu. Já nos cruzámos?”
Ele percebeu então: ela mal conseguia vê-lo. Cobarde, inventou: “Chamo-me João, cheguei há pouco.”
Puxou-o para dentro com a delicadeza de quem ainda acredita na bondade alheia. O chão de terra batida estava varrido, mas irregular. De repente, apareceu uma rapariga de olhos verdes, desconfiados. “Mãe, quem é?” Era Carolina, com o mesmo queixo dele. Atrás dela, um menino de dez anos correu, segurando desenhos.
“Parece o homem que eu desenho”, disse Tiago, apontando para a figura de traje no papel.
Leonor riu, sem notar o nó na garganta de António. “O meu marido partiu para ganhar a vida. Desde então, apertámos o cinto.”
“Há quanto tempo?”, perguntou ele, sem fôlego.
“Dezoito anos.” Leonor suspirou. “Nunca mais soube dele. Mas eu sempre rezei a Nossa Senhora para que protegesse o António e o trouxesse de volta.”
O copo lascado tremeu-lhe nas mãos. Antes que se confessasse, a porta rangeu e entrou o velho Amadeu com ferramentas. O ancião parou, olhou fixamente. “António Mendes… és tu?”
O silêncio cortou a sala. Carolina deixou cair a cadeira. Tiago soltou os desenhos. Leonor virou a cabeça, tentando ouvir melhor. “António?”
“Sou eu”, murmurou ele.
Carolina não se conteve: “Sabes o que foi ver a minha mãe a trabalhar até quase ficar cega? Sabes o que é a fome disfarçada de ‘não tenho apetite’?”
António não teve resposta. Apenas a verdade. “Tive vergonha. E a vergonha transformou-se em cobardia.”
Leonor ergueu a bengala. “Vai-te embora hoje. Se quiseres voltar amanhã, volta como homem simples. Sem encenações. Vem para ouvir.”
No dia seguinte, regressou de calças de ganga, sem flores. Subiu ao telhado com o velho Amadeu, arranjou as telhas, suou, sangrou. À noite, alugou um quarto na casa da Dona Alice e aprendeu que nem tudo se compra com dinheiro.
As semanas tornaram-se meses. Organizou os bordados de Leonor para que ela os vendesse a preço justo, e pagou a consulta aos olhos como “doação anónima”. Quando a clínica ligou, Leonor perguntou: “Porquê?”
“Porque não posso voltar atrás no tempo”, respondeu ele, “mas posso escolher não ser indiferente hoje.”
Um dia, a antiga empresa chamou. Crise. Contrato. Ele foi e regressou antes do jantar, mesmo perdendo milhões. Tiago sorriu: “Voltaste.”
Leonor ainda temia. Carolina ainda testava. Mas António aparecia todos os dias, mesmo nos mais difíceis. Até que, numa noite tranquila, Leonor sussurrou: “Podemos tentar outra vez… devagar.”
E ele compreendeu, finalmente: riqueza não é ostentação. É a constância de estar presente.
“Se acreditas que nenhuma dor é maior que a misericórdia de Deus, comenta: EU CREIO! E diz também: de que terra nos estás a ver?”





