Inês trabalhava na Mansão Dourada há quase seis meses.
Seis meses acariciando o mogno polido e o mármore frio, sentindo o peso de uma fortuna que nunca seria sua.
Ela morava num pequeno apartamento do outro lado da cidade, lutando para pagar os estudos da irmã na universidade. Aquele emprego era sua salvação e, às vezes, seu tormento silencioso.
O Sr. Monteverde, viúvo de hábitos estranhos, era conhecido em Lisboa pela sua imensa fortuna, construída com impérios imobiliários e projetos tecnológicos ambiciosos, mas pouco lucrativos.
Sua mansão erguia-se como um santuário para um legado ancestral: tetos ornamentados, tapeçarias desbotadas e um cheiro permanente de cera e naftalina no ar.
Naquela tarde, Inês foi convidada a fazer horas extras, dinheiro que ela precisava com urgência. O administrador da propriedade, o severo advogado Daniel Mendes, ordenou-lhe que limpasse a ala leste da mansão, um local fechado há anos.
“Ninguém deve entrar lá, Inês,” Daniel avisou com voz rouca, ajustando os óculos de aro dourado. “São documentos pessoais e memórias do Sr. Monteverde. Apenas tire o pó. Não toque em nada.”
A ala leste era um labirinto de sombras. Cortinas pesadas bloqueavam a luz do sol, deixando os quartos escuros e sem ventilação. Cada passo de Inês ecoava no assoalho de madeira, quebrando um silêncio que parecia ter décadas.
No centro da sala principal, havia uma pilha de objetos cobertos por lençóis brancos, como fantasmas imóveis.
Inês trabalhou em silêncio por quase uma hora, movendo-se com cuidado.
Então, viu-o.
Não era um fantasma, mas algo sólido e inegavelmente real.
Um enorme baú de madeira, escuro e pesado, reforçado com ferragens enfermas. Era imenso, quase do tamanho de um caixão pequeno.
Enquanto limpava o pó do metal gelado, ela parou.
Ouviu algo.
No início, tão fraco que quase ignorou. Talvez fossem canos velhos. A casa ajustando-se.
Mas então ouviu de novo.
**Toc. Toc. Toc.**
Rítmico. Deliberado.
Demasiado artificial para ser o vento.
O pânico invadiu-a. Estaria um animal preso lá dentro? Um rato enorme?
Ajoelhou-se e pressionou o ouvido contra o lado do baú. O cheiro de mofo encheu-lhe as narinas.
Os batimentos cessaram.
Mas, em vez disso, ouviu algo pior.
Um som fraco, quase um gemido. Um soluço abafado pela madeira grossa.
“Olá?” Inês sussurrou, o medo a gelar-lhe o sangue. “Há alguém aí?”
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio opressivo da mansão.
Mas ela sabia. Algo vivo estava lá dentro.
O baú estava trancado com uma fechadura enferrujada. Impossível abri-lo sem ferramentas.
Quando estava prestes a levantar-se e fugir, o seu olhar caiu sobre uma pequena mesa auxiliar, cheia de livros amarelados sobre direito e testamentos antigos.
E lá, capturando um fino raio de luz que se filtrava por uma fresta na cortina, estava uma chave.
Pequena. Brilhante. Como se tivesse sido colocada ali há instantes.
A dúvida assaltou-a. Se o advogado Daniel descobrisse que ela abrira o baú, perderia o emprego. Perderia o dinheiro de que a irmã precisava.
Mas o som que ouvira era humano.
As mãos tremiam enquanto girava a chave na fechadura. O mecanismo cedeu com um *clic* seco que ecoou pela sala como um tiro.
Respirou fundo, fechou os olhos por um instante, murmurou uma desculpa silenciosa a qualquer divindade que a ouvisse, e ergueu a tampa alguns centímetros.
A escuridão encontrou a luz.
O que viu foi um monstro.
Eram três pares de olhos.
Três rostos pequenos, pálidos e esqueléticos fitaram-na, cobertos de pó, cheios de terror e desespero.
Eram crianças.
Trigémeos, pelo aspeto idêntico. Apertados sob um cobertor sujo, abraçando-se para se aquecerem.
Um deles, um rapaz de cabelo castanho, ergueu uma mão trémula na sua direção.
—Por favor… estamos com fome —murmurou, quase sem voz.
O horror atingiu Inês como um relâmpago.
O Sr. Monteverde, o milionário, trancara-os ali dentro.
Porquê?
Que tipo de homem faria isto?
Abriu o baú por completo, deixando entrar a luz. As crianças eram pequenas para a idade (talvez cinco ou seis anos), embora a decadência as fizesse parecer mais novas.
“Quem são vocês?” perguntou Inês, ajoelhando-se ao lado do baú. “Porque estão aqui?”
A criança mais corajosa, de olhos arregalados e tremendo de medo, respondeu: “Somos o Tomás, a Leonor e o Duarte. O pai disse que era um jogo… mas já estamos a jogar há muito tempo.”
Pai.
O Sr. Monteverde.
Antes que Inês pudesse perguntar mais, o som de sapatos de couro polido ecoou pelo corredor principal.
O advogado Daniel Mendes estava a voltar.
**A TRAIÇÃO DO ADVOGADO**
Os passos aproximavam-se. A voz de Daniel, seca e autoritária, chamou-a do hall principal.
—Inês! Já acabou na ala leste? Precisa de assinar o recibo das horas extras!
O pânico invadiu-a. Se o advogado a encontrasse ali, com as crianças expostas, não só perderia o emprego como seria arrastada para um pesadelo legal.
Virou-se rapidamente para os trigémeos.
“Ouçam-me,” sussurrou com urgência. “Chamo-me Inês. Não vos vou magoar. Mas têm de ficar em silêncio absoluto. Percebem? Nem um som.”
Os três fitaram-na com olhos arregalados de medo.
Inês baixou cuidadosamente a tampa do baú, certificando-se de que ficava no lugar, mas sem a fechar. Depois, endireitou o uniforme, pegou no balde de limpeza e saiu do armazém, fechando a porta sem fazer barulho.
Quando chegou ao corredor principal, Daniel esperava-a junto à escadaria, de braços cruzados, com o seu fato impecável.
—Demorou demasiado —rosnou. —A ala leste não é tão grande. —O olhar era penetrante e suspeito.
—Desculpe, senhor advogado —respondeu Inês, tentando manter a compostura enquanto o coração batia descontroladamente. —Havia muito pó, especialmente nos rodapés.
Daniel estudou-a, os olhos a deterem-se no ligeiro tremor das suas mãos.
—Muito bem. Assine aqui e vá-se embora. E lembre-se: o que acontece nesta mansão, fica nesta mansão. O Sr. Monteverde é muito rigoroso com a sua privacidade.
Inês rabiscou a assinatura, mal conseguindo concentrar-se.
Enquanto Daniel lhe entregava o maço de notas, um pensamento gelou-a: *Porque protegia ele tanto a ala leste? E porque a chave do baú era nova, mas a fechadura estava enferrujada?*
—Uma pergunta, senhor advogado —disse cuidadosamente, tentando parecer descontraída. —O Sr. Monteverde tem netos? Vi algumas fotografias antigas no corredor.
Daniel ficou tenso. Pela primeira vez, a máscara de frieza rachou.
—O Sr. MonteInês sorriu enquanto as crianças, agora livres e seguras, corriam pelo jardim da mansão sob o sol de Lisboa, provando que a verdade e a coragem sempre prevalecem sobre a ganância.





