**Diário Pessoal**
Hoje, enquanto caminhava pela Avenida da Liberdade, senti o telefone a queimar-me a mão. A cidade brilhava à minha volta, como se o luxo pudesse rir-se da minha cara. A garganta apertada, o coração a bater com raiva e vergonha.
—Mãe… já fui a todo o lado —sussurrei. — Ninguém contrata alguém sem visto de trabalho válido.
Do outro lado, a voz da minha mãe, a chamar de Braga, trouxe a preocupação de sempre e aquela ternura que por vezes dói mais que um murro.
—E não há mesmo outra opção, filha? Depois de tantos anos a estudar… vais acabar a limpar casas?
Parei em frente a um palacete de três andares, com janelas que reflectiam um céu cinzento. O portão de ferro parecia uma fronteira entre dois mundos: de um lado, o cheiro dos jasmins e o silêncio; do outro, a minha carteira vazia, com vinte euros e um currículo impresso como último salva-vidas.
—É temporário, mãe. Apenas até resolver os papéis —menti, com uma calma que não sentia. — Tenho de desligar… cheguei.
Guardei o telemóvel, alisei o meu único fato preto e forcei-me a respirar. “Sou Mariana Silva, empregada doméstica”, repeti, como se dizer isso muitas vezes apagasse quem eu era de verdade. Não sou terapeuta ocupacional. Não tenho especialização. Não sei ler sinais. Não sei segurar a dor dos outros. Só preciso deste trabalho.
Apertei o interfone.
—Sim? —uma voz masculina, seca, distante.
—Bom dia. Sou a Mariana Silva. Venho para a entrevista do emprego doméstico.
Um silêncio longo, pesado, e depois o portão abriu-se lentamente. Avancei por um jardim impecável: relva cortada, roseiras simétricas, uma fonte de mármore. Tudo tão perfeito que parecia de mentira, como se ali dentro ninguém vivesse, apenas mantivesse a aparência de vida.
Quando cheguei à porta principal, esta abriu-se antes que eu batesse. Diogo Almeida estava à minha frente. Trinta e oito anos, fato cinza impecável, o ar de quem está habituado a mandar… e ainda assim, um cansaço nos olhos que não combinava com o luxo.
—Menina Silva —disse, sem sorrir. — Sou Diogo Almeida. Entre.
O interior era branco, brilhante, frio. Mármore, escadas em curva, lustres. Um museu caríssimo onde o ar parecia parado. Levou-me para um escritório rodeado de diplomas, prémios, fotos com políticos e empresários. Sentei-me com as mãos entrelaçadas para esconder o tremor.
Diogo ficou de pé.
—Antes de começarmos, precisa de entender uma coisa. Esta não é uma casa normal. O meu filho tem necessidades especiais. Muitas empregadas desistiram. Não aguentam a situação.
Senti um frio no peito. Autismo. A palavra encaixou-se na minha mente como uma chave na fechadura.
—O Tomás tem oito anos —continuou ele, como se recitasse algo já dito demasiadas vezes. — Rotinas específicas. Os brinquedos têm de estar exactamente no mesmo sítio. Vê os mesmos desenhos todos os dias. Não fala com estranhos… na verdade, quase não fala de todo. Desde que a mãe dele morreu, há ano e meio, ninguém conseguiu ajudar. Ninguém.
Engoli em seco. Cada instinto profissional gritava perguntas, mas mordi a língua.
—O seu trabalho será simples: limpeza, refeições básicas. Manter as rotinas do Tomás como estão. Sem mudanças. Sem tentar “curá-lo” como outros tentaram. Está claro?
—Perfeitamente claro, senhor Almeida.
—O salário é de setecentos euros. Domingo livre. Se aceitar, começa amanhã.
Setecentos. Era pouco, sim. Mas era o suficiente. Era mandar algum dinheiro à minha mãe. Era sobreviver.
—Aceito.
Nesse momento, um estrondo abalou o segundo andar e um grito agudo atravessou a casa como uma sirene. Diogo fechou os olhos como se alguém lhe cravasse uma faca no ouvido.
—Tomás…
Subiu a correr. Eu segui sem pensar. No corredor, uma senhora de cabelos grisalhos esperava à porta fechada, com o rosto exausto.
—Senhor Almeida, uma das empregadas mexeu nos carrinhos ao aspirar —explicou. — Já está assim há vinte minutos.
Do outro lado, pancadas na porta e um choro que não era só choro: era um mundo inteiro a desabar.
Diogo bateu com suavidade.
—Tomás, sou o pai. Está tudo bem. Vamos arrumar os carrinhos…
Os gritos intensificaram-se. Observei. Não eram necessárias palavras. Não precisava de explicação. Era uma tempestade sensorial, uma mudança mínima que se tornara catástrofe porque o corpo não sabia como voltar a sentir-se seguro.
Sem pedir licença, sentei-me no chão, encostei as costas à madeira e comecei a cantarolar uma melodia suave, rítmica, constante. Como uma corda lançada à água para que alguém não se afogue.
—O que está a fazer? —sussurrou Diogo, confuso.
Levantei um dedo, pedindo silêncio, e continuei. Juntei uma respiração audível, lenta e profunda, como se o próprio ar pudesse ensinar calma.
As pancadas diminuíram. O grito transformou-se em soluço. O soluço em silêncio.
Passaram-se minutos. Depois, a porta abriu-se lentamente e um menino espreitou. Tomás tinha o cabelo castanho do pai, olhos grandes e lindos, mas evitava olhar directamente. Segurava um carrinho vermelho com as duas mãos como se fosse a sua única certeza. Os olhos pousaram brevemente nos meus sapatos… e esconderam-se de novo.
Diogo olhou para mim como se não soubesse se devia agradecer ou temer.
—Como fez isso?
Senti o peso da minha mentira desde o primeiro segundo.
—O meu irmão mais novo era… parecido —improvisE quando a primeira risada do Tomás encheu a casa, como um raio de sol a furar as nuvens mais escuras, percebi que às vezes o amor é simplesmente ter a coragem de ficar.





