Pai Descobre Filha Ferida e Leva Justiça às Próprias Mãos na Escola6 min de lectura

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Capítulo 1
O cheiro da chuva no ar era inconfundível.

Quinze anos trabalhando com metal e graxa me deram um sexto sentido para mudanças de pressão. Mas, olhando para trás, talvez não fosse o tempo. Talvez fosse um aviso.

Limpei as mãos em um trapo de oficina, a graxa deixando manchas negras no tecido, e olhei para o relógio. 14h45. Hora de buscar a Letícia.

“Ei, João! Já vai?” gritou o Tótó de baixo de um Opala 72. Tótó não era pequeno; era um gigante de quase dois metros que chorava com propagandas de fraldas.

“Sim. Prometi à Letícia que iríamos ao sorvete se ela ganhasse uma estrelinha hoje,” disse, pegando as chaves. “Fecha a oficina se eu não voltar em uma hora.”

Entrei na minha velha F-100. Não levei a moto hoje. Estava tentando ser “pai”, não “vice-presidente” dos Lobos de Aço. Tentava me encaixar no molde que as mães da Associação de Pais do Colégio Primavera queriam.

Ex-presidiário. Três anos por agressão, aos vinte e dois—um erro envolvendo um homem que tocou na minha irmã. Paguei minha dívida. Montei um negócio. Criei minha filha sozinho depois que a mãe dela sumiu.

Mas para os moradores do bairro Parque dos Pinheiros, com seus jardins impecáveis e SUVs importados, eu era só o lixo que deu praia no CEP deles.

Cheguei à escola. A fila de carros era o caos de sempre: pais impacientes falando ao celular. Estacionei longe para evitar os olhares e fui a pé.

Foi quando ouvi as risadas.

Não era o som de crianças brincando. Era aquele riso cruel que revira o estômago. Uma multidão se formava perto do mastro da bandeira. Pais cochichando. Crianças apontando.

Abri caminho, murmurando “licença”.

E então a vi.

Meu coração não parou—despedaçou-se.

Minha Letícia. Minha doce, tímida Letícia de sete anos, que desenhava borboletas e salvava minhocas do sol.

Ela estava no chão.

Não estava brincando. Estava rastejando.

Sobre o cascalho afiado do pátio. Suas calças rosas estavam rasgadas nos joelhos. Sangue escuro manchava as pedras cinzas. Lágrimas silenciosas escorriam, mas ela não chorava. Estava aterrorizada.

E acima dela, de braços cruzados como uma estátua do julgamento, estava a diretora Sra. Isabela Montenegro.

“Continua, Letícia,” a diretora berrou. “Não somos preguiçosas aqui. Termina a volta.”

O mundo ficou vermelho. Um zumbido agudo tomou meus ouvidos.

Não corri—teleportei-me. Em um instante, estava de joelhos no chão, segurando Letícia contra o peito.

Ela recuou. Recuou de mim.

“Papai?” ela choramingou. “Desculpa… eu não quis.”

“Shh, princesa, shh. Tô aqui,” engasguei, apertando-a contra mim. Seu coraçãozinho batia como um passarinho assustado. Seus joelhos estavam esfolados.

Levantei-me com ela nos braços e encarei a diretora Montenegro.

Sou grande. Um metro e oitenta e cinco, cem quilos de puro músculo. Tatuagens sobem pelo meu pescoço. Uma cicatriz corta minha sobrancelha. Normalmente, eu me encolho para não assustar os outros.

Mas não hoje.

Fiquei em minha altura total. O ar pareceu esfriar dez graus. As risadas cessaram. Os pais em volta silenciaram.

“O que,” minha voz saiu áspera, “significa isso?”

A diretora não recuou. Ajustou os óculos com aquele olhar de nojo e superioridade.

“Sua filha,” Montenegro disse alto, para todos ouvirem, “agrediu uma aluna. Minha filha, Sofia. Empurrou-a contra os armários.”

“É mentira!” Letícia soluçou. “Ela pegou meu caderno de desenhos! Rasgou! Só tentei pegar de volta!”

“Silêncio!” Montenegro cortou. “Não toleramos violência, Sr. Mendes. Já que sua filha age como um animal, decidi que aprenderia a se locomover como um. Talvez rastejar lhe ensine humildade.”

Olhei para os pais em volta. “E vocês? Só ficaram olhando? Viram uma mulher adulta forçar uma criança a rastejar no cascalho?”

A maioria desviou o olhar. Um pai de camisa polo revirou os olhos. “Se ela machucou a Sofia, merece castigo. Se ao menos você a criasse direito…” Fez um gesto vago para meu macacão de mecânico.

Montenegro sorriu. “Leve-a e vá, Sr. Mendes. E nem pense em trazê-la amanhã. Está suspensa por três dias. Da próxima vez, ensine-a a não tocar em quem é superior.”

Superior.

A fúria que tomou conta de mim foi tão pura que sabia a ácido de bateria. Meu punho se cerrou. Queria destruí-la. Arrancar a escola tijolo por tijolo.

Mas olhei para Letícia. Ela tremia. Se eu batesse naquela mulher, iria preso. Letícia iria para um abrigo. Eles venceriam.

Respirei fundo. Enjaulei o monstro.

“Está certa,” falei baixo. “Vou levá-la.”

Caminhei até a caminhonete com minha filha sangrando nos braços.

“Volta pro barraco!” alguém gritou.

Coloquei Letícia no banco. Usei o kit de primeiros socorros para limpar seus joelhos. Ela arfava a cada toque do álcool.

“Papai, eu sou má?” ela perguntou com olhos úmidos.

“Não, princesa. Você é a melhor coisa deste mundo,” disse, beijando sua testa. “E ninguém—ninguém—vai te fazer rastejar de novo.”

Apertei seu cinto. Entrei no carro.

Não liguei o motor imediatamente. Peguei o telefone.

Não liguei para a diretoria. Eram aliados de Montenegro. Nem para a polícia. Eles me odiavam.

Disquei um número que não usava para “negócios” há dois anos.

“Tótó,” falei ao atender.

“Opa, chefe?”

“Coloca o aviso de ‘Fechado’ na oficina.”

“Por quê? Que houve?”

“Chama a galera,” eu disse, olhando a escola pelo retrovisor. “Chama o pessoal da Zona Leste também. E os Nômades, se estiverem na cidade.”

“João, que diabos tá rolando?” A voz do Tótó ficou grave. “É guerra?”

Vi a diretora Montenegro rindo com os pais, como se tivesse tirado o lixo.

“Sim, Tótó,” sussurrei. “Vamos pra escola.”

Capítulo 2: O Som do Trovão
Ao voltarmos para nosso pequeno lar nos fundos do bairro, Letícia parou de chorar. Isso me preocupou mais que as lágrimas. Silêncio em criança é pesado—significa que estão tentando entender uma crueldade que nem deveriam conhecer.

A casa estava limpa—obcecadamente. Desde que Clara morreu, quatro anos atrás, mantive tudo impecável. Era minha forma de ordem em um mundo sem ela.

Limpei os joelhos de Letícia. Os cortes não eram profundos, mas ardiam. A cada toque do álcool, via o rosto de Montenegro. Animais não andam.

“Papai?” Letícia sussurrou.

“O que foi,”Quando a escola abriu suas portas no dia seguinte, uma linha de motos enfileiradas como soldados aguardava, e no rosto de cada homem ali estava a mesma promessa: jamais deixar que o mundo quebrasse a luz nos olhos daquela criança. Fim.”

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