Às oito da manhã, Leonor Santos limpava a mesa de vidro da sala quando reparou em cinco carros de luxo a estacionar junto ao portão. Depois de quatro meses a trabalhar na quinta dos Almeida, sentiu logo que aquele dia seria diferente.
No andar de cima, Rodrigo Almeida apontava pela janela para o filho de oito anos, Tomás.
“Filho, as cinco mulheres de que falamos chegaram. Vão ficar connosco trinta dias.”
Tomás observou as mulheres elegantes a saírem dos carros.
“E no fim, tenho de escolher uma para ser a minha nova mãe, não é, pai?”
“Exatamente. Todas são bem-educadas e vêm de famílias influentes. Tenho a certeza que vais gostar delas.”
“E se não gostar de nenhuma?”
“Vais gostar. Podem dar-te uma educação excelente e levar-te a conhecer o mundo.”
De repente, o som de vidro a partir ecoou pela casa, seguido por uma voz furiosa.
“Empregada incompetente! Partiste o meu cristal caríssimo!”
Rodrigo e Tomás trocaram olhares surpreendidos.
“O que foi aquilo?”, perguntou Tomás.
“Não sei. Vamos ver.”
Desceram as escadas apressados e encontraram a Leonor de joelhos, a apanhar os bocados de cristal partido, com um dedo a sangrar. Uma mulher morena e alta olhava para ela, de braços cruzados.
“Aquele cristal era importado. Custou mais do que ela ganha num ano.”
“Foi um acidente”, murmurou a Leonor, de cabeça baixa.
“Um acidente?”, riu-se a mulher com desdém. “Pessoas como ela nem deviam tocar em coisas de valor.”
“Com licença”, interveio Rodrigo com firmeza. “O que se passa aqui?”
A morena virou-se com um sorriso treinado. “Rodrigo, sou a Vanessa Monteiro. Acabei de chegar, e a tua empregada partiu o meu cristal.”
As outras quatro mulheres aproximaram-se, observando a Leonor no chão.
“Bem, isto é constrangedor”, comentou uma loura magra.
“Chamo-me Olívia Barros”, apresentou-se, fria.
“Acidentes acontecem”, respondeu Rodrigo, tentando acalmar a situação.
“Acontecem com gente sem classe”, disparou a Olívia, fixando a Leonor. “Pessoas refinadas têm mais cuidado.”
Tomás passou pelo pai e correu para a Leonor.
“Leo, magoaste-te?”
Ela ergueu os olhos, forçando um sorriso.
“Não é nada, menino. Só um arranhão.”
Vanessa apertou os olhos. “Que intimidade estranha.”
Rodrigo interrompeu. “Já que estão todas aqui, vamos esclarecer. Esta é a Leonor, a nossa empregada. E vocês são as candidatas.”
As mulheres apresentaram-se com orgulho: Vanessa, de uma família tradicional de Lisboa; Olívia, modelo e influenciadora que vivera em Paris; Catarina Reis, advogada de uma grande firma; a Dra. Maria Guerra, dermatologista com clínica própria; e Laura Brito, arquiteta.
Durante as apresentações, trataram a Leonor como se ela não existisse.
“Todas vão ficar aqui trinta dias”, explicou Rodrigo. “No fim, o Tomás decidirá com quem quero casar.”
“E a empregada?”, perguntou a Vanessa.
“Ela fica”, respondeu Rodrigo. “A Leonor já está aqui há meses.”
Olívia trocou um olhar com a Catarina. “Só esperamos que ela saiba o seu lugar.”
Tomás agarrou a mão da Leonor. “Leo, vem ver o desenho que fiz!”
“Ela tem de limpar a sujidade primeiro”, rosnou a Maria.
“Não faz mal”, disse a Leonor suavemente. “Eu vou depois.”
Vanessa observou atentamente. “Interessante.”
Naquela tarde, as cinco mulheres reuniram-se no pátio, a comparar presentes—tablets, viagens de luxo, escolas privadas, remodelações do quarto.
Tomás apareceu e agradeceu com polidez, mas sem entusiasmo.
Depois, chegou a Leonor com sumo e bolinhos de canela. O rosto do menino iluminou-se.
“Fizeste tu estes?”
“Fiz. E trouxe papel para dobragens.”
As mulheres observaram em silêncio enquanto o menino demonstrava uma alegria que não conseguiam provocar.
Naquela noite, reuniram-se novamente.
“Esta situação com a empregada é inaceitável”, sussurrou a Vanessa.
“Está demasiado apegado”, concordou a Laura.
“É inapropriado”, disse a Catarina.
“Precisa de aprender hierarquias”, acrescentou a Maria.
“E ela precisa de uma lição”, concluiu a Vanessa.
Rodrigo, entretanto, não conseguia ignorar a mudança no filho. Tomás voltara a rir, a comer, a viver.
Mais tarde, o menino mostrou-lhe um pássaro de papel dobrado.
“Ela tem paciência”, disse. “Nunca grita.”
“Gostaste das senhoras?”, perguntou Rodrigo.
“São simpáticas… mas a Leonor é melhor.”
“Porquê?”
“Ela é verdadeira.”
“Vais despedi-la?”, perguntou Tomás, ansioso.
“Não”, prometeu Rodrigo. “Ela fica.”
O assédio começou dias depois—confusões propositadas, materiais escondidos, a culpa sempre atirada à Leonor. Rodrigo instalou câmaras escondidas.
O que viu deixou-o furioso.
Quando Tomás a defendia, a Vanessa ameaçou-o.
“Se continuas a preferi-la, terás de escolher.”
“Já escolhi”, respondeu Tomás. “Escolho a Leonor.”
Rodrigo descobriu acusações falsas e investigações inventadas pela Vanessa.
Na festa final, convencidas de que venciam, as mulheres gabavam-se—sem saber que eram gravadas.
Rodrigo mostrou tudo publicamente.
A verdade destruiu-as.
“Estas mulheres tentaram arruinar uma pessoa bondosa só porque o meu filho a amava”, disse Rodrigo.
“Quero que a Leonor seja a minha mãe”, disse Tomás, baixinho.
Rodrigo pediu a Leonor em casamento à frente de todos.
Ela disse que sim, com lágrimas nos olhos.
As mulheres fugiram envergonhadas.
Meses depois, Rodrigo e Leonor casaram-se de forma simples. Tomás chamava-lhe “Mãe”.
Mais tarde, nasceu a filha deles.
Recordando, Leonor disse baixinho: “Cada dificuldade trouxe-me até aqui.”
E juntos, provaram que o amor não se define por estatuto, mas por bondade, verdade e coragem.





