Motociclistas Impediram a Ambulância do Meu Filho e o Que Fizeram Ainda Me Assombra5 min de lectura

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Os motociclistas bloquearam a ambulância que levava o meu filho a morrer e eu gritei para que se afastassem, até perceber o que estavam realmente a fazer.

Sete motas cercaram-nos na Estrada Nacional 2 enquanto o meu filho de catorze anos, o Rodrigo, sangrava na maca. Batia na janela, praguejando, rezando, implorando a Deus que os mandasse embora.

Foi então que os vi dispersar à nossa frente, como uma formação militar.

Vinte minutos antes, o Rodrigo devia estar no treino de futebol. Em vez disso, um distraído atravessou o sinal vermelho a 80 quilómetros por hora e embateu no meu Renault Clio pelo lado do passageiro. Exatamente onde o Rodrigo estava sentado.

Não me lembro do impacto. Lembro-me do silêncio a seguir. Aquele silêncio horrível antes de começarem os gritos.

“Mãe.” A voz do Rodrigo estava molhada, com um som estranho. “Mãe, não consigo respirar.”

Olhei para ele e vi o meu filho coberto de sangue. Vidros por todo o lado. A porta do passageiro amassada como uma lata de cerveja esmagada. Os olhos do Rodrigo estavam arregalados e cheios de terror.

“Fica acordado, meu amor. Fica comigo. A ajuda já vem.”

Os paramédicos chegaram em seis minutos. Pareceram seis horas. Tiraram o Rodrigo dos destroços e meteram-no na ambulância. Um deles olhou para mim com uma expressão que nunca esquecerei. Uma expressão que dizia que não sabia se o meu filho chegaria vivo ao hospital.

“Minha senhora, pode vir connosco, mas tem de ficar fora do caminho.”

Entrei e encostei-me à parede. Observei-os a trabalhar no meu miúdo. Compressões torácicas. Soros. Máscara de oxigénio. Tanto sangue. Mais sangue do que eu achava que um corpo podia ter.

“Estamos a perdê-lo”, disse um paramédico ao outro. “A pressão está a cair. Temos de andar mais depressa.”

O motorista ligou as sirenes. Avançámos aos solavancos. Pela pequena janela traseira, via o trânsito à frente. Hora de ponta. Carros por todo o lado, sem espaço para sair.

“Vá lá, vá lá”, resmungou o motorista. A frustração transparecia.

Foi então que vi as motas.

Primeiro, apareceu uma. Uma Harley preta enorme que surgiu ao lado da ambulância. O motociclista era um gigante. Colete de couro, barba comprida, tatuagens a cobrir os braços. Olhou para a ambulância, depois para o trânsito, e acelerou à nossa frente.

Em segundos, havia mais. Duas, três, cinco, sete motas a aparecer do nada. Cercaram a ambulância como uma formação protetora.

“Mas que raio?”, disse o motorista.

Eu não percebia. A minha cabeça estava turva de medo. Só via que o meu filho estava a morrer e agora estes tipos estavam a atrapalhar.

“Saiam da frente!”, gritei. Bati na janela. “O meu filho está a morrer!”

Os motociclistas não saíram.

Avançaram.

O líder acelerou à frente e parou diante de um carro que não cedia. Deu uma aceleradela tão forte que se ouvia acima das sirenes. O condutor assustou-se e encostou.

Outros dois ocuparam a faixa da esquerda, forçando os carros a encostar. Mais dois fizeram o mesmo à direita. Os restantes ficaram atrás da ambulância, impedindo ultrapassagens.

Não estavam a bloquear-nos.

Estavam a abrir caminho.

“Meu Deus”, murmurou o motorista. “Estão a abrir-nos passagem.”

Através da janela, vi as motas a separar o trânsito como Moisés a abrir o Mar Vermelho. Carros que ignoravam as sirenes cediam a sete motas barulhentas e decididas.

A ambulância disparou. Trinta, quarenta, cinquenta quilómetros por hora.

Atravessámos cruzamentos. As motas chegavam primeiro, bloqueando o trânsito com os corpos e as máquinas. Buzinas, insultos—os motociclistas não ligavam.

“A pressão está a estabilizar”, disse um paramédico. “Vamos conseguir.”

Na Estrada Nacional 2, o trânsito piorou. Um engarrafamento monstruoso. Normalmente, este troço demorava quinze minutos. Vinte, em dias maus.

Os motociclistas não hesitaram.

O líder—o gigante de barba—avançou para o primeiro carro e bateu-lhe na janela. Apontou para a ambulância. O condutor empalideceu e encostou tão rápido que quase bateu no guarda-vento.

Um a um, os carros abriam caminho. Alguns cediam logo. Outros precisavam de ser convencidos. E os motociclistas convenciam.

“Três minutos”, anunciou o motorista. “Vamos chegar.”

Os olhos do Rodrigo abriram-se. Fitou-me com medo. Dor. “Mãe?”

“Estou aqui, meu amor. Estamos quase. Vais ficar bem.”

“Não quero morrer.”

Agarrei-lhe a mão. “Não vais morrer. Não deixo.”

A ambulância parou em frente às urgências. As portas abriram-se. Médicos e enfermeiros cercaram a maca e levaram o Rodrigo para dentro.

Tentei segui-lo, mas alguém me segurou. “Deixe-os trabalhar, senhora. Espere aqui.”

Desabei contra a parede. As pernas já não me aguentavam.

Foi então que me lembrei dos motociclistas.

Olhei para o estacionamento. Estavam lá. Os sete, estacionados perto da entrada. Não iam embora. Estavam junto às motas, a observar as portas do hospital.

Caminhei para eles, trémula.

O líder viu-me e aproximou-se. De perto, era ainda mais imponente. Dois metros, braços grossos, barba até ao peito. Na colete, patches que não consegui ler por causa das lágrimas.

“Como está o seu filho, senhora?”

A voz era suave. Muito mais calma do que eu esperava.

“Levaram-no para dentro. Ainda não sei.” Tremia. “Porquê? Como souberam?”

“Rádio”, respondeu outro motociclista—baixo, forte, com uma trança grisalha. “Estávamos a andar perto do acidente. Ouvimos a chamada. Trauma pediátrico, hemorragia interna, trânsito caótico. Sabíamos que a ambulância não chegaria a tempo.”

“Por isso garantimos que chegou”, completou o líder.

EncE, enquanto o Rodrigo crescia para se tornar um paramédico, eu nunca deixei de agradecer aos sete anjos de couro que um dia apareceram no meio do caos e disseram, sem palavras, que nenhuma criança morreria no trânsito se eles pudessem evitar.

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