Trinta Motociclistas Assaltam uma Loja à Meia-Noite e o Dono Só Ficou Sorrindo3 min de lectura

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Há muitos anos, numa pacata vila alentejana chamada Monte da Lua, presenciei algo que nunca esquecerei. Trinta motards assaltavam a mercearia local à meia-noite, e o dono apenas observava, sorrindo, como se tudo fosse perfeitamente normal.

Escondi-me atrás do meu carro, no estacionamento em frente, com os dedos trémulos a marcar o 112. Homens corpulentos, de coletes de couro, enchiam sacos de lixo com tudo que encontravam nas prateleiras.

Tinha chegado àquele recanto do Alentejo três semanas antes, depois de aceitar um emprego noturno num armazém nos arredores. Ia a caminho de casa quando avistei as motas alinhadas em frente ao Mercearia do Zé. Trinta, talvez mais.

O primeiro impulso foi seguir em frente, meter-me nos meus assuntos. Mas depois, através da janela, vi-os a percorrer os corredores, enchendo sacos com leite em pó, fraldas, comida enlatada, medicamentos, papel higiénico. De tudo um pouco.

E o dono, um velhote de cabelos grisalhos, apenas estava atrás do balcão, de braços cruzados, a sorrir. Não chamava a polícia. Não tentava impedi-los. Apenas observava.

Estacionei no lote vazio em frente e agachei-me no banco. As mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar o telemóvel.

“—112, qual é a sua emergência?”

“—Está a acontecer um assalto”, murmurei. “Na Mercearia do Zé, na Estrada Nacional 256. São pelo menos trinta homens. Motards. Estão a levar tudo. Por favor, mandem ajuda.”

“—Minha senhora, pode descrever o que vê?”

“—Estão a encher sacos com coisas. O dono não os está a impedir. Acho que o ameaçaram ou coisa assim. Por favor, mandem alguém.”

A operadora fez uma pausa. “—Minha senhora, disse que é na Mercearia do Zé? Na EN 256?”

“—Sim! Por favor, depressa!”

Outra pausa, mais longa. “—Minha senhora, é nova na região?”

Que tipo de pergunta era aquela? “—Sim, cheguei há pouco. O que é que isso importa? Há um assalto a acontecer!”

“—Minha senhora, vou mandar um agente até si. Fique no seu carro. Mas é importante que entenda que o que está a ver pode não ser o que pensa.”

“—Como assim? Eles estão a roubar tudo!”

“—Fique onde está. Um agente vai explicar.”

Desligou. Fiquei a olhar para o telemóvel, incrédula. Que tipo de operadora do 112 diz que um assalto não é o que parece?

Voltei a olhar para a mercearia. Os motards continuavam a carregar as motas. Um deles, um gigante com uma barba até ao umbigo, transportava garrafões de água. Outro carregava sacos de ração para cães. Um terceiro levava produtos de higiene feminina.

Produtos de higiene feminina? Que tipo de assalto era aquele?

O dono saiu com eles. Estava a rir-se. A rir! Apertou a mão de um, abraçou outro. Conversavam como velhos amigos.

Nada daquela cena fazia sentido.

Uma viatura da GNR parou ao lado do meu carro. Esperei que os sinos disparassem, que o agente saltasse para confrontar os motards. Em vez disso, abriu a janela com calma.

“—Foi a senhora que ligou para o 112?”

“—Sim! Não vão fazer nada?”

O agente olhou para a mercearia, para os motards a carregar as motas com mantimentos. Depois voltou-se para mim com um olhar estranho. Como se tentasse não rir.

“—Minha senhora, há quanto tempo mora aqui?”

“—Três semanas. Porque é que toda a gente me pergunta isso?”

“—Porque, se já cá fosse de outras andanças, saberia o que acontece às sextas-feiras.” Abriu a porta do carro. “—Venha comigo. Acho que precisa de conhecer algumas pessoas.”

“—Está louco? Não vou lá para o meio deles!”

“—Minha senhora, garanto-lhe que está em segurança. Aqueles homens não são criminosos. Bom, a maioria não.” Sorriu. “—Venha. Vou apresentá-la aos Lobos da Meia-Noite.”

Contra todos os meus instintos, saí do carro e segui o agente até ao outro lado da rua. As pernas tremiam-me como varas verdes. O coração batia tão forte que o ouvE foi assim que, naquela noite fria do Alentejo, aprendi que por trás de coletes de couro e motores rugindo, muitas vezes se escondem os maiores corações.

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