Durante quase três semanas, a quinta dos Pereira nas colinas acima do Porto tinha sido discretamente evitada por todas as agências domésticas. Ninguém afirmava oficialmente que a casa era perigosa, mas todas as mulheres que lá entravam saíam diferentes. Algumas choravam. Outras gritavam. Uma trancou-se na lavandaria até a segurança a tirar de lá. A última cuidadora saiu correndo descalça pelo caminho ao amanhecer, com tinta verde escorrendo pelos cabelos, gritando que as crianças estavam possuídas e que as paredes escutavam enquanto dormiam.
Pelas portas de vidro do seu escritório, João Pereira, trinta e sete anos, observou o portão fechar-se atrás do táxi dela. Era o fundador de uma empresa de cibersegurança cotada em bolsa, entrevistado semanalmente por revistas de negócios, mas nada disso importava quando ouviu o som de algo a partir-se no andar de cima.
Na parede, pendia uma fotografia de família tirada quatro anos antes. A sua esposa, Leonor, radiante e a rir, ajoelhada na areia enquanto as seis filhas se agarravam ao seu vestido, queimadas pelo sol e felizes. João tocou na moldura com as pontas dos dedos.
“Estou a falhar com elas,” murmurou para a sala vazia.
O telemóvel tocou. O seu gestor de operações, Tiago Mendes, falou com cuidado. “Senhor, nenhuma ama licenciada aceita o lugar. O departamento jurídico aconselhou a parar as chamadas.”
João respirou fundo. “Então não contratamos uma ama.”
“Resta uma opção,” Tiago respondeu. “Uma empregada doméstica. Sem registo de trabalho com crianças.”
João olhou através da janela para o jardim, onde brinquedos partidos jaziam entre plantas mortas e cadeiras viradas. “Contrate quem disser que sim.”
Do outro lado da cidade, num apartamento estreito perto de Vila Nova de Gaia, Inês Ribeiro, vinte e seis anos, apertou os ténis gastos e enfiou os livros de psicologia numa mochila. Limpava casas seis dias por semana e estudava trauma infantil à noite, motivada por um passado de que raramente falava. Aos dezassete anos, o seu irmão mais novo tinha morrido num incêndio. Desde então, o medo já não a assustava. O silêncio não a perturbava. A dor era-lhe familiar.
O telemóvel vibrou. A supervisora da agência falou apressada. “Colocação urgente. Propriedade privada. Começo imediato. Triplo do salário.”
Inês olhou para a fatura da universidade colada ao frigorífico. “Mande-me o endereço.”
A casa dos Pereira era bonita da maneira que o dinheiro sabe ser. Linhas limpas, vista para o rio, sebes bem aparadas. Por dentro, parecia abandonada. O guarda abriu o portão e murmurou: “Boa sorte.”
João recebeu-a com olheiras profundas. “O trabalho é só limpeza,” disse rapidamente. “As minhas filhas estão de luto. Não posso prometer calma.”
Um estrondo ecoou lá em cima, seguido de um riso cortante.
Inês acenou com a cabeça. “Não tenho medo da dor.”
Seis meninas observavam-na das escadas. Beatriz, doze anos, postura rígida. Carolina, dez, a puxar as mangas. Eva, nove, olhos inquietos. Madalena, oito, pálida e silenciosa. As gémeas Daniela e Filipa, seis, a sorrir com demasiada intensidade. E Leonor, três, agarrada a um coelho de peluche roto.
“Chamo-me Inês,” disse com calma. “Vim limpar.”
Beatriz avançou. “É a número trinta e oito.”
Inês sorriu sem hesitar. “Então começo pela cozinha.”
Notou as fotografias no frigorífico. Leonor a cozinhar. Leonor numa cama de hospital, a segurar a pequena Leonor. O luto não estava escondido ali. VivAos poucos, as risadas voltaram a ecoar pelos corredores daquela casa, e quando o verão trouxe o cheiro do rio pela janela aberta, Inês percebeu que, juntos, haviam aprendido a carregar a saudade sem se deixarem afogar nela.





