Menina pobre destrói carro luxuoso para salvar criança perdida, e médico chora ao reconhecê-la5 min de lectura

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As ruas de Lisboa brilhavam sob o sol do meio-dia enquanto Beatriz Almeida, uma jovem de dezasseis anos, corria desesperada para a escola.

O ar pesado colava-se à sua pele, e o alcatrão irradiava um calor tremeluzente que fazia dançar os edifícios ao longe. Os seus sapatos gastos batiam no calcário num ritmo frenético enquanto desviava dos transeuntes, apertando contra o peito uma pilha de livros em segunda mão. O coração martelava-lhe as têmporas, mas não abrandou o passo. Seria a terceira vez que chegava atrasada naquela semana.

O diretor fora claro na segunda-feira de manhã, a encará-la por cima dos óculos:
«Almeida, se chegares atrasada mais uma vez, revemos a tua bolsa. Há muitos alunos à espera da tua vaga», dissera com voz cortante.

“Não posso perder isto”, repetia Beatriz, como um mantra desesperado. Sem a bolsa, não só teria de sair da escola privada para onde entrara quase por milagre, como também teria de começar a trabalhar a tempo inteiro no mercadinho do bairro, como a sua mãe. Estudar era a sua única saída.

O uniforme, herdado de uma prima mais velha, ficava-lhe um pouco largo e mostrava as marcas do tempo: punhos desfiados, uma nódoa amarela na gola da camisa, uma costura mal remendada na saia. Mas era o melhor que a família podia oferecer, e Beatriz usava-o com orgulho, como se fosse novo.

Ao virar para a Avenida da Liberdade, abrandou um pouco para evitar um homem que empurrava um carrinho de gelados. Foi então que o ouviu.

Primeiro, pensou ser a imaginação, um eco abafado entre o ruído dos carros e vozes distantes. Mas o som voltou, desta vez mais nítido: um choro fraco e entrecortado que desaparecia e reaparecia a intervalos irregulares. Beatriz parou a seco, o peito a subir e descer rapidamente.

Franziu a testa e olhou em volta. A avenida, normalmente repleta de gente a essa hora, estava estranhamente deserta naquele troço. Alguns carros estacionados, persianas de lojas fechadas, o murmúrio distante da cidade. O choro recomeçou, mais fraco ainda, e Beatriz, guiada pelo instinto, seguiu o som.

Vinha de um Mercedes preto reluzente, estacionado sob o sol abrasador junto ao passeio. Os vidros estavam escuros, refletindo a luz quase cegamente. Aproximou-se; a sua própria imagem distorcida refletia-se no vidro, o rosto suado e preocupado.

Apertou a testa contra o vidro, tentando ver dentro. No início, só distinguia sombras, mas quando os olhos se habituaram à penumbra, viu uma pequena figura no banco de trás.

Um bebé, preso a uma cadeirinha, contorcia-se fracamente. Tinha o rosto vermelho como um tomate e o cabelo colado à testa de suor. Movia os lábios, mas quase não emitia som.

“Meu Deus!”, sussurrou Beatriz, sentindo um frio no estômago.

Bateu no vidro com os nós dos dedos.
“Olá! Há alguém? O bebé está aqui!”, gritou, procurando ajuda.

A rua continuava deserta, como se o calor tivesse varrido toda a gente. Nenhum adulto, nenhum segurança, ninguém para lhe dizer que estava tudo bem.

Bateu novamente, desta vez com mais força. O bebé já não chorava; os movimentos tornavam-se mais lentos. Uma pontada de pânico atravessou Beatriz. Lembrou-se de uma notícia que lera no telemóvel de uma colega: um bebé morrera de insolação depois de ser esquecido num carro.

As palavras atravessaram-lhe a mente. «Está a morrer… preso ali dentro…».

—Não —murmurou. Não, não, não.

Olhou para as horas no telemóvel: tecnicamente, já estava atrasada. Podia continuar a correr para a escola e fingir que não vira nada. Podia convencer-se de que os pais estariam por perto. Podia salvar a bolsa.

Mas a imagem do pequeno corpo sem vida no banco de trás ficou-lhe presa na garganta. Não havia escolha; qualquer pessoa com coração perceberia.

Os olhos procuraram algo no chão, e viu um tijolo partido junto a uma árvore. Agarrou-o com mãos trémulas.
“Desculpa…”, sussurrou, sem saber se pedia perdão ao dono do carro, ao bebé ou ao seu próprio futuro.

Fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e, com toda a força, esmagou o tijolo contra o vidro traseiro.

O vidro estilhaçou-se com um estalo seco que ecoou pela avenida. Uma chuva de fragmentos brilhantes caiu sobre o assento. Quase de imediato, soou o alarme, e a sirene aguda quebrou o silêncio do meio-dia.

Beatriz sentiu pequenos estilhaços a cortarem-lhe os antebraços, mas não recuou. Meteu a mão pela abertura irregular e, com cuidado desesperado, soltou os cintos de segurança.

O corpo do bebé ardia ao toque, a roupa encharcada. A jovem pegou nele, encostando-o ao peito.

—Tranquilo, tranquilo… —murmurou, quase sem fôlego. Já estás cá fora, meu amor.

A criança soltou um gemido abafado, a cabeça inclinada. Os olhos estavam semiabertos, a respiração fraca. Alguns vizinhos espreitaram das varandas, alarmados pelo barulho da sirena.

—Ó rapariga! O que estás a fazer? —gritou um homem de uma janela.

—O bebé! Estava a sufocar com o calor! —respondeu Beatriz, sem tempo para explicações.

Olhou para a escola e depois para o hospital público, que ficava a seis quarteirões. Sem hesitar, abraçou o bebé contra o peito e correu.

Cada passo queimava-lhe os pés, o uniforme colava-se ao corpo suado, e as mãos picavam dos cortes. O bebé pesava mais do que esperava, e ao terceiro quarteirão, faltava-lhe o ar. Mas não parou.

—Espera, por favor, falta pouco… —repetia entre respirações ofegantes.

Um carro abrandou ao lado dela. Um motorista de meia-idade baixou o vidro.
“Miúda! Que se passa? Posso ajudar?”
—Para o hospital! Ele está a morrer! —gritou Beatriz, sem parar de correr.

O homem estacionou a brO motorista acelerou, e enquanto o vento fresco batia no rosto de Beatriz, ela olhou para o bebé nos seus braços e soube que, apesar de tudo, tinha feito a única coisa que importava.

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