O Professor Ignorou o Desespero da Minha Filha — Sem Saber que Eu Viria com um Exército para a Reunião de Pais6 min de lectura

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**Capítulo 1: O Silêncio dos Inocentes**

Há dez anos que deixei para trás a vida de fora-da-lei. Troquei os coletes, as guerras de estrada e as noites na cadeia por uma chave inglesa, uma casa nos arredores de Lisboa e a missão de ser pai solteiro da menina mais doce do mundo, a Beatriz. Prometi à mãe dela, no seu leito de morte, que manteria a nossa filha longe da violência. Que seria o “Zé Cidadão”, não o “Martelo”.

Cumpri essa promessa. Usei camisas de colarinho nas reuniões da escola. Sorri aos vizinhos que olhavam para as minhas tatuagens com desconfiança. Tornei-me no homem que consertava os corta-relvas de todos nos fins de semana, sem cobrar. Era aborrecido. Era seguro.

Até ontem.

Estava na garagem, o cheiro a graxa e óleo velho enchendo o ar—o meu santuário—quando o portão lateral rangeu. Eram 14h00 de uma terça-feira. A escola só acabava dali a uma hora. O meu relógio interno, afiado por anos a viver no limite, onde o timing significava sobrevivência, disparou um aviso.

Quando ergui os olhos da transmissão que estava a reparar, a chave inglesa escorregou-me da mão e caiu no cimento.

A Beatriz estava ali. O seu vestido amarelo favorito—aquele que usava nos dias de fotografia porque dizia que a fazia sentir-se como o sol—estava rasgado no ombro, expondo uma queimadura roxa e feia. O cabelo, normalmente apanhado em tranças, estava emaranhado, com pastilha cor-de-rosa presa nas raízes.

Mas foi o rosto dela que parou o meu coração e depois o fez bater com uma fúria pura e incandescente. O lábio estava partido, inchado, e os olhos… os olhos estavam vazios, sem luz, como se estivesse a olhar para uma cova. Não parecia a minha menina. Parecia uma vítima de guerra.

“Beatriz?” A minha voz falhou. Corri para ela, limpando a graxa das mãos às calças, ajoelhando-me para ficar à sua altura. Não ousei tocá-la, com medo de a magoar mais. “Meu amor, o que aconteceu? Quem fez isto?”

Ela não chorou. Isso foi o pior. Apenas tremia, como um animal assustado. Estava em choque.

“Eles… arrastaram-me pelo alcatrão,” sussurrou, a voz quase inaudível sobre o zumbido do frigorífico. “A Carolina e as amigas dela. Queriam o meu caderno de desenhos. Disseram que os meus desenhos eram de malucos.”

O meu sangue gelou. A Carolina. A filha da presidente da associação de pais. A “menina de ouro” da Escola Secundária do Vale.

“Onde estavam os professores?” perguntei, os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos. O velho instinto de luta sobrepôs-se a dez anos de fuga. “Onde estava o segurança? Onde estava a Dona Margarida? Disseste que ela estava no recreio hoje.”

A Beatriz baixou os olhos para os sapatos estragados, envergonhada, como se fosse culpa dela. “A Dona Margarida estava lá, pai. A dez passos de distância.”

“E então?” insisti, precisando de ouvir, de saber a dimensão da traição.

“Ela… olhou para nós.” Uma lágrima finalmente traçou um caminho na poeira e no sangue seco na sua face. “Gritei o nome dela. Vi-a olhar para mim. Depois, olhou para o relógio, deu um gole no café e virou as costas. Fingiu que não viu. Deixou que me arrastassem pelo cabelo durante cinco minutos, pai. Ela simplesmente deixou.”

O silêncio na garagem foi ensurdecedor. Não era apenas silêncio; era um vácuo. Naquele momento, “Zé Cidadão” morreu.

Levantei-me devagar. O ar pesava, carregado de electricidade estática. A minha visão estreitou. Já não via a garagem suburbana. Via vermelho.

“Pai?” A Beatriz parecia assustada agora. Não dos bullies, mas do olhar nos meus olhos. Nunca tinha visto este homem. Só conhecia o pai que fazia panquecas aos domingos. Não conhecia O Martelo.

“Vai para dentro, meu amor,” disse, a voz uma oitava mais grave, transformando-se num rosnido que não usava há uma década. “Lava a cara. Põe gelo no lábio. Não abras a porta a ninguém.”

“Onde vais?”

Caminhei até ao velho baú no canto—aquele que não abria desde que a Beatriz tinha cinco anos. O cadeado abriu-se com um clique quando girei a chave escondida num parafuso oco da bancada.

Lá dentro, o cheiro era a couro, tabaco e memórias. Tirei o colete de couro preto. O emblema dos “Cavaleiros do Fogo” estava desbotado, mas ainda ameaçador. Presidente. Reformado.

“Vou à escola, Beatriz,” disse, vestindo o colete. Apertava nos ombros, mas servia. Parecia vestir uma armadura. “E não vou sozinho.”

**Capítulo 2: Trovão na Estrada**

Peguei no telemóvel. O meu polegar pairou sobre um número que não ligava há anos. Guardado como “Zé Grande”. O atual segurança dos Cavaleiros do Fogo.

O meu coração batia forte, não de medo, mas de antecipação sombria. Tentei a maneira correcta. Enviei e-mails sobre o bullying. Liguei ao director. Deram-me panfletos sobre “resolução de conflitos”. Disseram que “são coisas de miúdos”.

Hoje, iam aprender que as acções têm consequências.

O telefone tocou duas vezes.

“Zé?” A voz do outro lado era áspera como pedras num liquidificador. Ouvia-se o ruído de um jogo de bilhar e rock clássico ao fundo. “Está tudo bem? Só ligas para esta linha em emergências.”

“Não, Zé. Nem tudo está bem.” Peguei no capacete preto fosco. “Preciso dos rapazes. Todos.”

“É o Cartel?” perguntou ele, o tom mudando de casual para prontidão.

“Pior,” cuspi. “É a escola. A Beatriz chegou a casa espancada. Uma professora viu e não fez nada. Acham que, porque sou um pai solteiro nos subúrbios, sou fraco. Acham que estou sozinho.”

Houve uma pausa. Os Cavaleiros eram marginais, criminosos para alguns, mas tínhamos um código. Mulheres e crianças eram intocáveis. E família? Família era sagrada. A Beatriz era afilhada de metade do clube.

“Onde e quando?” perguntou o Zé. Sem perguntas. Sem hesitações.

“Parque da Escola Secundária do Vale. Trinta minutos. Vou fazer uma visita ao director.”

“Qual é o plano?”

“Intimidação,” disse, as palavras a saberem a metal na boca. “Não mexemos nos miúdos. Mas quero que aquela escola sinta o chão tremer. Quero que aquela professora se mijE quando os nossos motores rugiram em uníssono, não foi apenas um aviso—foi um lembrete de que, por mais que tentem enterrar a justiça, ela sempre encontra um caminho, mesmo que seja nas rodas de quem já não tem nada a perder.

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