O Pequeno na Estação: O Passado Bate à Porta 25 Anos Depois4 min de lectura

Compartir:

**Diário de uma mãe**

Hoje, enquanto caminhava para a estação, ouvi um som que me fez parar a meio do caminho. O vento gelado de fevereiro cortava o rosto, mas acima do seu assobio, havia um choro fraco, quase abafado pela neve.

Virei-me para os trilhos. Perto de uma cabana desgastada pelo tempo, havia um embrulho escuro. Aproximei-me com cuidado e, ao afastar o cobertor sujo, vi uma mãozinha vermelha de frio.

“Meu Deus!” O coração disparou.

Ajoelhei-me e peguei a criança. Era uma menina, não devia ter nem um ano. Os lábios estavam azulados, e o choro era tão fraco que quase não se ouvia. Envolvi-a no meu casaco e corri até à nossa única enfermeira, a Dona Teresa.

“Rita, o que é isso?” Dona Teresa olhou para o embrulho nos meus braços e ficou pálida.

“Encontrei-a junto aos trilhos. Está congelada.”

A enfermeira examinou-a rapidamente. “Hiportermia, mas está viva. Graças a Deus.”

“Vamos chamar a polícia,” disse ela, já a pegar no telefone.

Parei-a. “Vão mandá-la para um orfanato. Ela não sobrevive a essa viagem.”

Dona Teresa hesitou, depois abriu um armário. “Aqui. Tenho um pouco de leite em pó da última visita da minha neta. Dá para agora… Mas, Rita, o que vais fazer?”

Olhei para aquele rostinho, já mais quente contra o meu pulôver. Ela parara de chorar.

“Vou criá-la,” respondi. “Não há outra escolha.”

Os boatos começaram logo.

“Trinta e cinco anos, solteira, vive sozinha e agora anda a recolher crianças abandonadas?”

Que falem. Nunca me importei com mexericos. Com a ajuda de uns conhecidos na junta de freguesia, tratei dos documentos. Não apareceram familiares. Ninguém procurava uma criança desaparecida.

Chamei-lhe Mariana.

O primeiro ano foi difícil. Noites sem dormir, febres, os primeiros dentinhos. Embalei-a, cantei cantigas de embalar que mal me lembrava da minha infância.

“Mamã!” Foi a primeira palavra que disse, aos dez meses, esticando os bracinhos para mim.

Chorei. Depois de tanto tempo sozinha, aquela casinha agora tinha vida. Eu era mãe.

Aos dois anos, era um furacão. Perseguia o gato, puxava as cortinas, fazia mil perguntas. Aos três, já sabia todas as letras. Aos quatro, inventava histórias inteiras.

“Ela é um prodígio,” dizia a vizinha, a Dona Isabel, abanando a cabeça. “Não sei como consegues.”

“Não sou eu,” respondia, sorrindo. “Ela é que brilha.”

Aos cinco, arranjei forma de a levar à escola na vila ao lado. As professoras não acreditavam.

“Ela lê melhor do que as crianças de sete anos,” diziam.

Na escola primária, exibia longas tranças castanhas com laços coloridos. Eu penteava-a todas as manhãs. Nunca faltei a uma reunião de pais. Os professores elogiavam-na sem parar.

“Rita,” disse-me uma professora, “a Mariana é a aluna que todos querem ter. Tem um futuro brilhante.”

O coração inchava de orgulho. A minha filha.

Cresceu numa jovem graciosa e decidida. Magra, confiante, com olhos azuis cheios de determinação. Ganhava concursos de português, matemática, até competições científicas. Toda a aldeia a conhecia.

Uma noite, no 10.º ano, anunciou: “Mãe, quero ser médica.”

Pisquei os olhos. “Que maravilha, querida. Mas como pagamos a universidade? A vida na cidade?”

“Vou conseguir uma bolsa,” disse, os olhos a brilhar. “Vou arranjar maneira. Prometo.”

E arranjou.

Quando chegou a carta de aceitação na faculdade de medicina, chorei dois dias. Lágrimas de alegria e medo. Era a primeira vez que partia.

“Não chores, mãe,” disse-me na estação, apertando a minha mão. “Vou vir todos os fins de semana.”

Claro que não foi assim. A cidade absorveu-a. Aulas, estágios, exames. No início, vinha uma vez por mês. Depois, de dois em dois. Mas ligava todas as noites, sem falta.

“Mãe! Tirei 20 em anatomia!”

“Mãe! Hoje assisti a um parto!”

Eu sorria sempre ao ouvi-la.

No terceiro ano, notei algo diferente na sua voz.

“Conheci alguém,” disse, tímida.

Chamava-se Tiago. Colega de curso. Trouxe-o no Natal – alto, educado, com olhos bondosos. Ajudou a pôr a mesa e agradeceu pelo jantar.

“Bom partido,” murmurei à Mariana na cozinha.

“Achas?” Ela brilhava. “Mas não te preocupes, os estudos estão em primeiro lugar.”

Depois da licenciatura, entrou na especialização. Pediatria, claro.

“Salvaste-me um dia,” justificou. “Agora quero salvar outras crianças.”

As visitas tornaram-se raras. Eu entendia. Tinha a sua vida. Mas guardava cada foto, cada história sobre os seus doentes.

Até que, numa quinta-feira, o telefone tocou.

“Mãe, posso ir aí amanhã?” A voz dela parecia tensa. “Preciso de falar.”

O coração apertou. “Claro, querida. Está tudo bem?”

No dia seguinte, chegou sozinha. Sem sorriso, sem brilho nos olhos.

“O que aconteceu?” Perguntei, abraçando-a.

Ela sentou-se, cruzando as mãos. “Dois estranhos apareceram no hospital. Um homem e uma mulher… Disseram que são meus tios.”

Arrepiei-me. “Como assim?”

“Afirmam que a sobrinha deles desapareceu há 25 anos.”

A cabeça deu voltas. “E…?”

“Têm fotografias. Testes de ADN.”

Leave a Comment