A câmera desliza devagar pelo portão de ferro negro. O som do motor dissolve-se num estalo seco. Claque. Do outro lado, o silêncio parece vivo, denso, pesado, como se engolisse o ar. O jardim está impecável, sem uma folha fora do lugar. E o sol de Lisboa reflete nas janelas como lâminas.
Toda a gente dizia que na mansão dos Vale e Sousa o tempo parara juntamente com as vozes. Nenhum riso infantil, nenhum “pai”, nenhum “mãe”. Apenas o eco dos próprios passos e, por vezes, o som distante de um relógio antigo que parecia marcar não as horas, mas a ausência delas. Naquela manhã abafada, Mariana chegou com uma mala pequena, o cabelo preso por um laço de fita azul e o olhar de quem guarda fé no bolso.
Parou diante da porta alta, sentiu o cheiro de cera e, por um instante, julgou ouvir alguém respirar do outro lado, mas era apenas o vento a deslizar pelas colunas de mármore. Quando o portão se fechou atrás dela, o som metálico ecoou como um aviso. Aqui dentro, tudo obedece ao silêncio. Uma mulher magra, de coque impecável, abriu a porta. “É a nova cuidadora?”, perguntou sem sorrir. Mariana assentiu. “Sou sim. Vim pelo anúncio.”
A mulher, a governanta Madalena, avaliou-a de cima a baixo como quem inspeciona um móvel. Depois apontou o corredor. “O Sr. Eduardo não gosta de atrasos nem de barulho.” Mariana entrou. O ar era frio, quase de igreja. O chão espelhava os passos, e o som dos sapatos parecia um erro.
Nos corredores, quadros com molduras douradas exibiam retratos antigos, homens sérios, mulheres que não sorriam. Um chamava a atenção: o de uma jovem de olhos tristes, segurando dois bebés. Na plaquinha, “Leonor Vale e Sousa, 1987-2018”. Mariana sentiu um arrepio. Aquela mulher tinha o mesmo olhar dos meninos que ela ainda não conhecia.
Eduardo surgiu no topo da escada, fato escuro, mãos nos bolsos, olhar de pedra. A voz saiu baixa, controlada. “A senhora cuidará dos meus filhos. Só isso?” “Sim, senhor”, respondeu Mariana, disfarçando o nervosismo. “Eles não emitem nenhum som. Os médicos foram claros.” Fez uma pausa breve, os olhos fixos nela. “Não tente o que os outros tentaram.”
“Cuide, alimente, mantenha a rotina.” Mariana quis dizer que, por vezes, o impossÃvel só precisa de tempo, mas conteve-se. O olhar dele pedia silêncio. A governanta completou, como quem recita um catecismo: “Nada de música, nada de histórias. Assustam-se com facilidade.”
Mariana apenas sentiu e, ao subir a escada para o quarto das crianças, percebeu que o som dos seus próprios passos desaparecia à medida que avançava, como se a casa os engolisse. No quarto dos meninos, as cortinas pesadas deixavam passar um fio pálido de luz. Os brinquedos eram caros, coloridos, mas pareciam demasiado novos, intocados. Dois meninos idênticos estavam sentados no tapete, a empilhar blocos de madeira.
Um deles, João, olhou-a de relance e desviou o olhar. O outro, Martim, manteve a cabeça baixa, concentrado no vazio. Mariana ficou imóvel, sem saber se devia cumprimentá-los. Ela, que crescera a ouvir que nunca aprenderia a falar, agora precisava alcançar duas crianças presas no mesmo tipo de silêncio.
“Eu sou a Mariana”, disse devagar, quase num sussurro. “Vim ficar com vocês.” Nenhum dos dois reagiu. Apenas trocaram um olhar rápido, cúmplice. Era como se conversassem numa lÃngua invisÃvel, feita de gestos e piscadelas. Mariana ajoelhou-se à altura deles. A textura do tapete era fria sob os seus joelhos.
Observou os blocos, as pequenas torres que construÃam e, sem pedir licença, pegou num bloco verde. “Posso brincar também?”, perguntou, erguendo o bloco sobre a cabeça como se fosse um chapéu. “Acho que me tornei numa torre viva.” Martim piscou duas vezes. João conteve o riso. Não foi uma gargalhada, mas o canto da boca tremeu. Mariana percebeu e, naquele microgesto, cabia um universo.
“Tudo bem”, murmurou. “Se não quiserem falar, eu falo por nós três.” Num canto da sala, uma babá eletrónica piscava uma luz vermelha. Mariana sentiu que estava a ser observada, endireitou a postura, tentou parecer profissional, mas sabia no fundo. Se tratasse aqueles meninos como robôs, eles nunca a deixariam entrar.
Naquela noite, depois do jantar silencioso, Mariana ficou no quarto de hóspedes, a olhar para o teto. O som distante de um trovão fez o vidro tremer. Pensou na mãe, que passava as tardes a tentar fazê-la pronunciar as primeiras sÃlabas. Recordou-se da sua voz doce: “Não é que não saibas, filha, é que ainda não encontraram a tua maneira de falar.” Mariana fechou os olhos. O mesmo nó apertou-lhe a garganta.
“Se eu consegui, eles também conseguem”, sussurrou no escuro. Na manhã seguinte, acordou antes de todos. O céu ainda estava cinzento. O cheiro a café vinha da cozinha. Vestiu o uniforme, ajustou o laço azul no cabelo e desceu com passos firmes. Na sala de jantar das crianças, João e Martim estavam imóveis diante dos pratos. Pareciam esperar uma ordem que nunca vinha.
Mariana aproximou-se. “Bom dia, meninos.” Nenhuma resposta. Sentou-se à mesa, fingindo naturalidade. Pegou numa bolacha, colocou-a no prato de cada um. “Sabem o que é isto?”, perguntou. “Nada.” “É um carro”, disse, movendo a bolacha como se tivesse rodas. “Brum!” Um pequeno som escapou da garganta de Martim. Um quase-riso, um sopro.
João virou o rosto, mas não afastou o prato. Mariana piscou-lhes conivente. “Ops, o carro errou o caminho.” Fingiu engolir a bolacha. “Ai, entrou na minha boca!” Martim arregalou os olhos. João tapou a boca com a mão, a conter o riso. Pela primeira vez, o ar da sala pareceu mover-se.
Mariana não celebrou, apenas respirou fundo. “Se não quiserem comer, tudo bem. Mas eu prometo: enquanto eu estiver aqui, não precisam ter medo do som.” Do corredor, passos ecoaram. Eduardo observava, mãos cruzadas, expressão indecifrável. Quando Mariana se virou, ele já desaparecera. Mais tarde, Madalena surgiu à porta.
“Menina Mariana”, disse, a voz um aviso. “Aqui, cada palavra tem consequências.” Mariana manteve a calma. “Entendido.” A mulher inclinou ligeiramente a cabeça. “As outras cuidadoras também diziam isso. Nenhuma durou mais de uma semana.”
Saiu, deixando no ar o cheiro de perfume antigo e uma frase suspensa, pesada. Mariana ficou sozinha, a olhar para os blocos de madeira espalhados pelo chão. João juntava duas peças verdes. Martim empilhava uma vermelha. De repente, João piscou duas vezes. Martim respondeu, girando o punho no ar, e ambosE quando as primeiras palavras dos meninos finalmente romperam o silêncio da mansão, todos perceberam que o verdadeiro milagre não era fazê-los falar, mas aprender a ouvir.





