CAPÍTULO 1: O SOM DO METAL NO OSSO
Eram 14h14 de uma terça-feira. Lembro-me bem porque estava com as mãos na graxa de um motor de 1972 quando o telemóvel vibrou na bancada. Não era uma chamada, mas uma mensagem de um número desconhecido.
Apenas uma foto.
O meu estômago caiu através do chão de cimento da oficina. Era a Leonor. A minha irmã mais nova. A miúda que tinha criado depois dos nossos pais morreram naquele acidente na A1, há cinco anos. Na foto, estava caída no chão de linóleo do corredor da Escola Secundária de Vale do Lobo. Os óculos partidos a um palmo de distância. Um fio de sangue — vermelho vivo, raivoso — escorria da testa até à sobrancelha.
E ao fundo, desfocado mas inconfundível, um casaco de desportivo. Número 12. A afastar-se.
Não limpei as mãos. Não fechei a oficina. Apenas peguei no capacete.
A Leonor tem dezasseis anos. É quieta. Lê livros de ficção científica obscuros e pinta aguarelas de pássaros. Não magoa ninguém. Não cria problemas. É invisível para a maioria daquela escola, e é assim que gosta. Mas o Número 12 — o Tiago Branco — decidiu que a invisibilidade não bastava. Ele precisava de um alvo.
Soube depois o que aconteceu. O Tiago queria impressionar a namorada. A Leonor caminhava para a aula de História quando ele lhe pregou um encontrão. De propósito. Não foi acidente. Meteu todo o peso de jogador de râguebi numa rapariga de cinquenta quilos. Ela voou de lado. A cabeça bateu contra a grelha do armário 304.
Disseram que o som foi como um tiro.
O Tiago riu-se. “Olha para onde vais, esquisita”, disse.
Montei a minha mota, uma Harley customizada que soa como o apocalipse quando acelero. Mas não liguei o motor ainda. Carreguei no botão de emergência da nossa aplicação. Aquele que só usamos em “Código Vermelho”.
A mensagem era simples: LEONOR. VALE DO LOBO. AGRESSÃO NO CORREDOR. AGORA.
Sou vice-presidente dos Lobos de Ferro. Não somos um gangue. Somos mecânicos, veteranos, operários, pais. Somos uma família. E a Leonor? É a irmãzinha do clube. É quem serve o bacalhau na ceia de Natal. É quem cosia os emblemas nas jaquetas quando tinha doze anos.
Liguei a chave. O motor rugiu. Mas ao sair do estacionamento, percebi que não estava sozinho.
Do leste, o ronco profundo da mota do Zé Grande. Do oeste, o zumbido agudo da Sportster do Rui. E atrás de mim, um trovão que se sente nos dentes antes de se ouvir nos ouvidos.
Não planeámos um comboio. Aconteceu.
CAPÍTULO 2: O TUMULTO NO GINÁSIO
A Secundária de Vale do Lobo é daquelas fortalezas suburbanas de tijolo e vidro onde a reputação é tudo. O diretor, o Dr. Almeida, preocupa-se mais com a série de vitórias da equipa de râguebi do que com a segurança dos alunos. Já estive no gabinete dele duas vezes por causa da Leonor. Deu-me o discurso habitual: “Os jovens são assim.”
Hoje não, Almeida. Hoje não.
A viagem até à escola demora vinte minutos. Fizemo-la em nove.
A beleza terrível de trezentas motas em formação cerrada é a física disso. Ocupamos a estrada toda. Os carros encostaram. Os peões pararam a olhar, telemóveis em punho, a filmar o rio de couro preto e cromado a invadir a Rua Principal. Passámos dois vermelhos. Não me importei.
Chegámos à entrada da escola no momento em que a campainha tocava para o encontro desportivo. A equipa de râguebi estava a ser glorificada no ginásio.
Desliguei o motor. Houve um silêncio breve, depois aterra quando as outras motas fizeram o mesmo. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o ruído.
“Fiquem com as motas”, disse aos novatos. “Os veteranos, comigo.”
Cinquenta de nós marchámos em direção às portas de vidro. Eu ia à frente. O Zé Grande, que tem dois metros e parece um viking que comeu outro viking, estava à minha direita.
O segurança, um ex-polícia chamado Antero, conhecia-nos. Saiu, olhou para mim, para a raiva nos meus olhos, para os homens atrás de mim.
“Ela está na enfermaria, João”, sussurrou, afastando-se. “Mas o Tiago está no ginásio.”
“Vou buscá-la primeiro”, disse. “Depois vou ao ginásio.”
“Faz o que tens a fazer”, murmurou Antero. “Só não o mates.”
“Não prometo nada”, resmungou o Zé Grande.
Caminhámos pelos corredores. O linóleo guinchava sob as nossas botas. O cheiro a couro e gasolina grudava-se a nós. Os alunos encostaram-se às paredes, olhos arregalados. Nunca tinham visto nada assim. Isto não era um filme. Era uma invasão.
Encontrámos a Leonor na enfermaria. Tinha um saco de gelo na cabeça, a chorar baixinho. Quando me viu, não disse nada. Apenas se atirou para os meus braços. Cheirava a desinfetante e medo.
“Quero ir para casa”, sussurrou.
“Vais para casa”, disse, apertando-a, sentindo a graxa das minhas mãos a manchar-lhe a camisola. “Mas primeiro temos de dizer adeus.”
“A quem?”
“Ao gajo que fez isto.”
Olhei para o Zé Grande. “Leva-a para a mota. Põe-lhe o capacete. Espera por mim.”
“João”, advertiu o Zé.
“Vou só conversar”, menti.
Virei-me para o ginásio. O som da banda e dos alunos ecoava pelo corredor. Estavam a celebrar a equipa. Estavam a celebrar o Número 12.
Empurrei as portas duplas. O barulho era ensurdecedor. As cheerleaders faziam uma pirâmide. A banda tocava um hino. E lá, no centro, de microfone na mão, estava o Tiago Branco, banhado em glória.
Pisei o pavilhão. Sozinho.
Então o resto do clube — os duzentos e cinquenta que não couberam no corredor — decidiu que estava cansado de esperar lá fora.
As portas de emergência abriram-se com estrondo.
CAPÍTULO 3: A MÚSICA PARA
Não foram só as portas de trás. Foram todas.
As laterais abriram-se. A entrada principal encheu-se de corpos. Jaquetas de couro. Barbas. Tatuagens. Lenços. O impacto visual dos Lobos de Ferro num encontro desportivo é algo que fica. É como ver uma onda de ganga e fúria a esmagar um piquenique.
A banda foi a primeira a notar. O baterista deixou cair uma baqueta. Os trompetes desafinaram. As cheerleaders balançaram, a rapariga no topo a olhar para baixo em pânico antes de desmontarem a pirâmide.
O silêncio varreu o ginásio, fila por fila, até só restar o zumbido da ventilação e o feedback do microfone do Tiago.
O Tiago estava parado no meio do pavilhão. Olhou para mim. Para os homens atrás de mim. Para as paredes forradas de motoqueiros. O casaco de desportivo, que antes era uma armadura, de repente parecia muitoE quando a Leonor sorriu ao sair da escola no último dia de aulas, com as aguarelas debaixo do braço e os amigos a rir atrás dela, percebi que uma única tarde de motores rugindo tinha mudado mais do que anos de silêncio, e que às vezes a justiça vem mesmo com o som de uma Harley a acelerar.





