Ele demitiu a empregada anos atrás. No aeroporto, a viu tremendo com duas crianças – até que o garoto sorriu e disse algo que o destruiu.6 min de lectura

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O eco das malas rodando e dos anúncios de voos automatizados era o único som que Eduardo Mendes realmente ouvia. Era a trilha sonora da sua vida, um ritmo de constante movimento para frente.

O Aeroporto Humberto Delgado era um borrão de caos e rostos estressados, uma cidade inteira espremida numa caixa de concreto. Pessoas com casacos grossos discutiam com comissários de bordo. Crianças arrastavam peluches por poças sujas. Um homem de negócios praguejava ao telefone em espanhol acelerado perto da fila de segurança.

Eduardo, de quarenta e dois anos, caminhava por aquilo tudo como se fosse a única pessoa ali.

Cortava a multidão com passos longos e decididos, uma figura alta em um sobrado de lã caríssimo que provavelmente custava mais que o aluguel de muitos. Movia-se como um homem acostumado a que as pessoas saíssem da sua frente—e elas saíam. Cabeças viravam, olhos pousavam no relógio de pulso caro, na maleta de couro, na postura confiante.

Ele não notava.

Nunca notava ninguém.

Era um homem esculpido em eficiência fria, o visionário fundador da Mendes Capital, um milionário que se tornou bilionário, dependendo do mercado. Sua vida era uma sucessão de números, negócios, planilhas, jatinhos e salas de reunião.

Não tinha tempo para atrasos.

“Senhor, a equipe de Lisboa já está na chamada, estão perguntando se o senhor já embarcou”, sussurrou o assistente, um jovem nervoso chamado Gonçalo, tentando acompanhá-lo enquanto equilibrava três telefones, pastas e um café que respingava a cada passo.

Eduardo não diminuiu o ritmo.

“Diga a Lisboa para esperar”, ordenou, sem desacelerar.

Sua voz era cortante como o ar de dezembro que entrava sempre que as portas deslizantes se abriam. Estava focado em uma coisa só: a fusão.

Aquele acordo em Lisboa coroaria seu ano mais lucrativo—uma aquisição de 1,2 mil milhões de euros que solidificaria seu legado. A imprensa financeira chamava de “ousada”.

Ele chamava de “terça-feira”.

Seu olhar estava fixo na entrada vip à frente. Ali havia poltronas de couro, salas silenciosas e um corredor de segurança privado onde ninguém ousaria pedir que tirasse os sapatos.

Odeava o caos dos terminais públicos. Um mar de mediocridade. Voos atrasados, crianças chorando, pessoas que andavam devagar demais, que paravam no meio do caminho sem pressa. Gente que tinha tempo para perambular pelas lojas duty-free como se fosse um passeio no shopping.

Ajustou a alça da maleta no ombro e franziu os olhos para uma família bloqueando a passagem. Um carrinho de bebê, malas inchadas e um pai com cara de derrota.

Encurvou o corpo para passar por eles. Respirou fundo, pronto para seguir sem se importar.

E então ouviu.

Uma voz fina, cortando o barulho do aeroporto como uma faca.

“Mamãe, estou com fome.”

Não deveria ter ouvido.

Não deveria se importar.

Mas Eduardo, por razões que jamais entenderia, virou-se.

Nunca virava.

Seus passos desaceleraram, até pararem por completo. As pessoas ao redor desviaram, resmungando. Gonçalo quase esbarrou nele.

E foi então que ele a viu.

Sentada num dos bancos de plástico duros, uma jovem encolhida, os ombros curvados, segurando as mãos de duas crianças pequenas—gêmeos, um menino e uma menina, talvez cinco ou seis anos.

Seu primeiro pensamento foi automático: pobreza.

O cabelo dela estava preso num coque desarrumado, mechas soltas emoldurando o rosto. O casaco era fino, azul desbotado, do tipo que se compra em brechó.

As crianças estavam pálidas, as bochechas vermelhas de frio. Os casacos eram tão finos quanto o da mãe. A menina tinha o zíper quebrado, seguro com um alfinete de segurança. O menino usava sapatos molhados na ponta.

Dividiam um pacote minúsculo de batatas fritas. Um pegava um pedaço, passava para o outro. Nenhum dos dois tomava mais que seu irmão.

Seu segundo pensamento nem foi um pensamento—foi um choque.

Um impacto no peito.

Ele conhecia aquele rosto.

Não como conhecia pessoas de jantares de caridade ou reuniões de acionistas.

Conhecia aquele rosto refletido nas janelas do seu apartamento enquanto ela limpava o vidro.

Nos mármores do chão da cozinha, enquanto ela esfregava de joelhos.

Tinha visto aquele rosto erguer-se para ele uma noite, os olhos arregalados, quando tudo deu errado.

Não a via havia seis anos.

Seu coração deu uma pancada estranha. A boca secou.

O barulho do aeroporto sumiu, como se alguém tivesse abaixado o volume.

“Senhor Mendes? Tudo bem?”, Gonçalo perguntou, nervoso.

Eduardo não respondeu.

Não o ouviu.

O mundo havia se inclinado, só um pouco, mas o suficiente para que nada parecesse no lugar.

“Inês?”, disse.

O nome saiu como um sopro. Um fantasma escapando entre os dentes.

A cabeça dela ergueu-se como se alguém a tivesse puxado por um fio invisível.

Os olhos—castanhos claros, suaves e assustados ao mesmo tempo—fixaram-se nos dele.

Por um instante, o choque apareceu no rosto dela.

Depois, rapidamente, foi substituído por pânico.

“Senhor Mendes?”, sussurrou.

Todo o seu corpo ficou rígido, como um veado que ouviu o estalo de um galho na floresta. As mãos apertaram as dos filhos. Um tremor percorreu seus ombros.

Fazia seis anos desde que a vira pela última vez.

Inês.

Sua antiga empregada doméstica.

A garota quieta que trabalhara para ele no seu apartamento em Lisboa por dois anos. Aquela que polia seus troféus, alinhava seus acessórios, passava suas camisas até ficarem como armaduras.

A garota que sempre mantinha os olhos baixos, a menos que ele falasse com ela.

A garota que, um dia, simplesmente desapareceu.

Sem aviso. Sem explicação.

Ele ficara irritado. Incomodado. Uma quebra na sua rotina. Mandara Gonçalo ligar para a agência, exigir uma substituta.

No dia seguinte, uma nova garota aparecera.

E pronto.

Ou era o que ele dizia a si mesmo.

“Senhor?”, Gonçalo insistiu, mais nervoso ainda. “A equipe de Lisboa está chamando. O piloto diz que temos apenas cinco minutos se o senhor quiser decolar no horário.”

Eduardo deu um passo à frente.

“Fique longe”, Inês disse, afiada.

A voz era baixa, mas o aviso nela era de aço.

Ele parou. Algo estranho torceu-se em seu peito. Culpa. Não gostava daquela sensação. Não combinava com ele.

“O que está fazendo aqui?”, Eduardo perguntou.

A própria voz o surpreendeu—áspera, como se tivesse engolido areia.

“Está… diferente.”

Foi a coisa errada a dizer. De tudo que poderia ter dito, foi o que saiu.

Claro que ela estava diferente.

Seis anos e duas crianças depois, como não estaria?

Inês desviou o olhar, um movimento rápido e instintivo. A vergonha lavou seu rosto, como se ela tivesse constrangimento de ser vista por ele. PuxEle estendeu a mão devagar, como se tivesse medo de assustá-la, e pela primeira vez em seis anos, sentiu que talvez ainda houvesse tempo para reconstruir tudo o que havia destruído.

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