3 Dias Antes do Natal, Um Pai Descobre o Segredo Desgarrador no Quarto da Filha5 min de lectura

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A neve caía pesadamente sobre os subúrbios de Lisboa, cobrindo as mansões de Cascais com um manto branco e silencioso. Para o resto do mundo, era uma cena digna de um postal natalino. Para Tiago Mendes, era apenas mais um lembrete do frio que sentia por dentro.

Aos 42 anos, Tiago tinha o mundo aos seus pés. A sua empresa de tecnologia financeira acabara de fechar o ano com lucros recorde. Podia comprar qualquer coisa. Carros desportivos, casas na Praia da Rocha, arte renascentista. Mas a sua imensa fortuna parecia inútil, como notas de brincadeira, porque não podia comprar a única coisa que importava.

Não podia comprar a voz da sua filha.

Dezoito meses atrás, a vida de Tiago partira-se ao meio. Um camião numa estrada escorregadia. O som de metal a dobrar-se. O silêncio repentino. A sua esposa, Beatriz, morrera no instante. A sua filha, Leonor, então com quatro anos, sobrevivera sem feridos físicos, mas a sua alma ficara presa naquele carro destruído.

Desde o funeral, Leonor não pronunciara uma única palavra. E pior, deixara de andar. Os médicos chamavam-lhe “paralisia psicogénica”. O seu cérebro, sufocado pelo trauma, simplesmente desligara as pernas.

Tiago trouxera os melhores. Neurologistas da Suíça, psiquiatras infantis de Madrid, gurus holísticos do Algarve. A mansão Mendes transformara-se numa porta giratória de jalecos brancos e promessas vazias.

—É questão de tempo, senhor Mendes —diziam todos enquanto cobravam cheques de cinco dígitos.

Mas o tempo passava, e Leonor continuava sentada na sua cadeira de rodas junto à janela, uma boneca de porcelana com o olhar perdido no jardim nevado.

Tiago começara a odiar a sua própria casa. Chegava tarde de propósito. Ficava no escritório a assinar papéis desnecessários, só para evitar o silêncio funéreo do jantar. Quando chegava, bebia um copo de aguardente velha, beijava a testa fria da sua filha adormecida e trancava-se no escritório.

Mas naquele 22 de dezembro, o destino interveio.

Uma tempestade cancelou o seu voo para Londres. O motorista trouxe-o de volta a casa às duas da tarde. A casa devia estar silenciosa, com Leonor a dormir a sesta e a equipa a mover-se como sombras.

Tiago abriu a porta principal. O hall de mármore estava escuro. Deixou as chaves cair na mesa da entrada. O som metálico ecoou, solitário.

Tirou o casaco, sacudindo a neve, e dirigiu-se à escada. Foi então que ouviu.

Parou em seco, a mão na balaustrada de madeira.

Não era o vento. Não era o aquecimento.

Era música.

Uma melodia suave, rítmica, mas vibrante. Algo com um compasso latino, quente e profundo.

E por baixo da música… eram passos?

Tiago franziu a testa. Contratara uma nova empregada há um mês. Rosa. Uma mulher de sessenta anos, com mãos calejadas e um sorriso que parecia demasiado luminoso para aquela casa triste. Tiago mal falara com ela. Pagava-lhe para limpar e garantir que Leonor comia, não para pôr música.

A raiva começou a ferver-lhe no peito. Como se atrevia ela a perturbar a paz da casa? E se Leonor se assustasse? Os médicos disseram que precisava de sossego.

Subiu as escadas de dois em dois degraus, movido por irritação e uma estranha curiosidade.

À medida que se aproximava do corredor do primeiro andar, o som mudou. Já não era só música.

Havia uma voz.

—Isso mesmo, minha flor. Sente o ritmo. O ritmo não está nos pés, está no coração.

Era a voz de Rosa.

Tiago chegou à porta do quarto de Leonor. Estava entreaberta. A luz dourada do fim da tarde entrava por ela.

Empurrou a porta com força, pronto para gritar, para a despedir, para impor ordem.

Mas as palavras morreram-lhe na garganta.

A cena diante dele desafiava toda a lógica.

Tinham afastado os móveis. A cara tapeçaria persa estava desimpedida. Na vitrola antiga que fora de Beatriz —e que ninguém tocara há dois anos— girava um disco velho.

Rosa não usava o uniforme cinzento. Trazia uma saia colorida que devia ter trazido na mala. Estava descalça.

E Leonor…

Leonor não estava na cadeira de rodas.

A menina estava no chão, mas não sentada. Estava de joelhos, as mãos nos ombros de Rosa.

—Um, dois, três! Levanta esse ânimo! —cantarolava Rosa, movendo-se com uma graça surpreendente para a sua idade.

O que Tiago viu a seguir fez-lhe fraquejar os joelhos. Agarrou-se à ombreira para não cair.

Leonor estava a rir.

Não era um sorriso tímido. Era uma gargalhada, viva, borbulhante, uma risada que Tiago esquecera que existia.

E enquanto ria, impulsionada pelo balanço de Rosa, Leonor pressionou as perninhas contra o chão.

—Olha, Rosa! —disse uma vozinha rouca pelo desuso.

Tiago prendeu a respiração. Ela falou. Ela falou.

—Estou a ver, princesa! —encorajou Rosa, com lágrimas nos olhos—. Agora, levanta! Como te ensinei! Como dançam as guerreiras!

Rosa afastou-se um pouco, oferecendo apenas as mãos como apoio.

Leonor, com o rosto brilhante de suor e alegria, franziu a testa em concentração. As pernas tremiam. Os músculos atrofiados protestavam. Mas havia algo nos seus olhos que Tiago não via desde o acidente: Fogo. Determinação.

Lentamente, trémula como uma folha ao vento, Leonor levantou-se.

Pôs-se de pé.

Sem aparelhos. Sem a ajuda de enfermeiras. Só ela, uma canção antiga e as mãos calejadas de uma empregada.

Deu um passo hesitante. Depois outro.

—Pai! —gritou Leonor de repente, olhando para a porta. Vira Tiago.

O feitiço quebrou-se por um instante. Rosa virou-se, assustada, levando as mãos à boca ao ver o patrão pálido e trémulo na entrada.

—Senhor Mendes… eu… —gaguejou Rosa, baixando— Não a despeça, por favor, só estávamos… — mas Tiago já a abraçava, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto enquanto segurava Leonor contra o peito, e naquele instante percebeu que o verdadeiro milagre não fora a música, mas o amor que tornara possível ouvi-la outra vez.

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