**Capítulo 1: O Alvo**
Contei as rachaduras no chão de linóleo da cantina, segurando a respiração. Um, dois, três. Se não levantasse os olhos, talvez não me vissem. Era a regra que seguia no Liceu Marquês de Pombal. Ser invisível. Como um fantasma. Cabeça baixa, fazer o trabalho, sair. Mas hoje, o universo tinha outros planos. Uma sombra cobriu minha bandeja, bloqueando a luz fluorescente e deixando minha pizza ainda mais fria.
“Ei, Cérebro.”
A voz era grossa, com aquele tom fingidamente relaxado que sempre precede violência. Era o Tiago. Claro que era o Tiago. O capitão do time de futebol, o rei dos corredores, o cara que decidiu que minha vida seria um inferno desde o dia em que transferi para cá, três meses atrás. Ele cheirava a perfume caro e privilégio.
Não respondi. Apenas apertei meu livro de Cálculo Avançado com mais força, os nós dos dedos brancos contra a capa. Tentei focar nas fórmulas, nas derivadas e integrais, na lógica dos números que fazia sentido em um mundo que não fazia.
“Estou falando com você,” o Tiago rosnou, batendo a mão calejada na mesa.
O leite saltou do copo, derramando algumas gotas. A cantina, normalmente barulhenta, ficou em silêncio ao nosso redor. O povo adora um espetáculo, desde que não sejam eles no centro. Senti os olhos das animadoras, dos nerds e dos deslocados todos voltados para nós.
“Só quero almoçar, Tiago,” murmurei, finalmente erguendo os olhos. Minha voz soou fraca, estranha.
Ele sorriu, olhando para os capangas—o Rui e o Zé—que riam como hienas atrás dele. Eram cópias dele, só que com menos neurônios e mais agressividade. “Ouviram? Ele quer almoçar. Mas sabe o que eu acho? Acho que você pensa demais. Tanto livro faz mal aos olhos.”
Antes que pudesse reagir, o Rui arrancou o livro das minhas mãos. O papel rasgou um pouco.
“Devolve,” falei, a voz tremendo. Não de medo—apesar de haver muito—mas de uma raiva contida que não podia liberar. Ainda não. Não podia quebrar o disfarce.
“Quer mesmo?” O Rui segurou o livro alto, brincando de pique-pega como se eu fosse um cão. “Vai buscar.”
Ele jogou o livro pelo corredor. Ele rodopiou no ar e caiu com um baque surdo dentro do caixote do lixo. O plástico rangiu enquanto meu futuro—minhas anotações, os códigos que decifrei—afundava no lixo, sobre restos de bifanas e maçãs mordidas.
O Tiago se aproximou, invadindo meu espaço. “Nem precisa estudar, miúdo. Onde você vai parar, ninguém lê. Você é um zero à esquerda aqui.”
A mesa explodiu em risadas. Um som cortante e cruel. Levantei-me, a cadeira rangendo no chão. As mãos tremiam. Caminhei até o caixote, o rosto queimando de vergonha.
Estendi a mão para pegar o livro. Não era só dever de casa que estava ali.
**Capítulo 2: A Invasão**
Minha mão estava a centímetros do caixote quando o mundo explodiu.
*CRASH.*
As portas duplas da cantina não se abriram—voaram para dentro, batendo contra as travas com a força de um comboio.
“TODOS NO CHÃO! MÃOS À VISTA! AGORA!”
O grito vinha de um megafone. Não era o diretor com uma suspensão. Nem o agente da PSP com as mãos no cinto.
Era uma equipa tática inteira.
Coletes pretos. Capacetes. Espingardas apontadas. “POLÍCIA! NO CHÃO!”
E à frente deles, um Pastor Alemão, um monstro musculado puxando a trela, as garras escorregando no chão encerado. O latido ecoou nas paredes.
O caos estourou. Gritos. Cadeiras tombando. Ténis a chiar no chão.
O Tiago e os amigos congelaram. O riso morreu na garganta. Pareciam veados nos faróis, confusos, a postura de dominadores evaporando.
“EU DISSE NO CHÃO!” um agente rugiu, avançando.
Ajoelhei-me perto do caixote, as mãos atrás da cabeça. Respirei fundo. Já tinha ensaiado isso mil vezes na mente.
O Tiago, porém, estava em pânico. “O meu pai está na câmara municipal! Vocês não podem—”
“CALA-TE E DEITA-TE!”
O treinador do cão soltou a trela. O Pastor Alemão não latiu mais. Cheirava o ar, puxando o agente para a nossa direção.
Parou. Sentou-se. Rígido. Alertado. Olhando para o caixote.
O sinal.
O agente olhou para mim. Para o caixote. Para o Tiago e os amigos, com as digitais frescas no “crime”.
“Positivo!” gritou ao rádio. “Código Vermelho! Ninguém sai! Esquadra Anti-Bomba em prontidão!”
*Esquadra Anti-Bomba?*
O Tiago olhou para o caixote, depois para mim. O rosto empalideceu. “O que… o que meteste aí?”
Olhei para ele e, pela primeira vez em três meses, deixei a máscara cair.
“Não meti nada, Tiago,” disse, a voz firme. “Mas acabas de atirar o meu livro em cima do que eles procuravam. E agora, o teu cheiro está em todo o lado.”
O agente agarrou o Tiago pelo colarinho e esmagou-o contra a parede. “Algemem-no!”
“Não! Foi o livro dele! Ele é o esquisito!”
O agente olhou para mim. Apontei para o caixote.
“Agente,” falei. “Verifique o fundo falso. Não é o meu livro. É o que está por baixo.”
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(Continuação nos capítulos seguintes, seguindo a mesma adaptação cultural, com nomes portugueses, referências locais e estrutura reescrita mas fiel ao original.)





