**Capítulo 1: A Chamada Que Mudou Tudo**
O vibrador do telemóvel descartável contra o peito pareceu-me um ataque cardíaco estava deitado no chão, três dias numa missão de vigilância num lugar que não posso nomear, a cerca de trezentos quilómetros a sul da fronteira. O pó aqui sabe a cobre e gasolina velha. Não devia atender. O protocolo exigia silêncio. Silêncio absoluto, a menos que estivéssemos sob fogo direto. Mas este não era o satélite. Era o descartável. O toque estava programado para apenas uma coisa: “Emergência – Casa.”
Arrastei-me para as sombras dos escombros do refúgio, verificando o perímetro uma última vez antes de atender. As minhas mãos tremiam, não pelo medo do cartel que estávamos a vigiar, mas pelo terror do que poderia estar a acontecer nos subúrbios de Lisboa.
“Inês?”, sussurrei, a voz rouca pela desidratação. “Está tudo bem? Houve uma invasão? Preciso de ativar o protocolo?”
“É o Martim”, a voz da minha mulher quebrou. Ela chorava. Não era o choro de medo estava habituado a isso e sabia lidar. Era diferente. Era o choro zangado, exausto, desesperançado. “Pedro, tens de vir para casa. Não aguento mais. A escola… vão expulsá-lo.”
O sangue gelou-me nas veias, congelando o suor no pescoço. “Expulsá-lo? Ele está no primeiro ano, Inês. Tem seis anos. O que raio poderia ter feito? Bateu em alguém? Levou uma faca?”
“Não”, soluçou, o som preso na garganta. “Ele disse a verdade. E ninguém acreditou nele.”
Tudo começou duas semanas antes. A Inês contou-me tudo, entre lágrimas. O trabalho era simples: “Desenha o que os teus pais fazem.” Um projeto normal para crianças. A maioria desenhava malas, estetoscópios, carros de bombeiros ou computadores.
O Martim desenhou um homem de fato tático preto a saltar de um helicóptero. Desenhou um distintivo que vira uma vez na minha gaveta. Desenhou uma bandeira. Desenhou os óculos de visão noturna que lhe deixara experimentar antes de partir.
Quando se levantou para apresentar, a professora Matias—uma mulher que se orgulhava do “realismo” e da “educação sem fantasia”—interrompeu-o. Não elogiou o desenho. Não perguntou pelos detalhes. Perguntou-lhe porque é que desenhava personagens de videojogos em vez da sua família real.
O Martim, o meu filho corajoso e teimoso, olhou para ela e disse: “Esse é o meu pai. Ele é uma Sombra. Ele apanha os monstros para não virem a tua casa.”
A turma riu-se. Um miúdo chamado Rodrigo, o tipo de valentão que aprende crueldade em casa e atinge o auge na primária, gritou que o meu pai devia estar na prisão e era por isso que nunca aparecia para o buscar. Por isso é que o Martim era sempre o último à espera no passeio.
**Capítulo 2: O Limite**
“Marcaram uma reunião hoje, Pedro”, continuou a Inês, a voz a tremer de indignação. “A professora Matias, a diretora e a psicóloga. Sentaram-me naquelas cadeiras de plástico que nos fazem sentir crianças e disseram-me que o Martim mostra sinais de ‘mecanismos de coping delirantes’.”
Fechei os olhos, encostando a cabeça à parede de betão rachado. “Mecanismos de coping delirantes”, repeti.
“Disseram que ele inventou uma figura paterna fantasiosa para lidar com o trauma de… seja lá o que pensam que fazes. Acham que nos abandonaste, Pedro. Ou que estás na prisão.”
Agarrei o telemóvel com tanta força que o plástico estalou. “O que lhes disseste?”
“Disse que servias o país! Disse que o teu trabalho é confidencial. Disse que és um herói que não vê a cama há seis meses para os manter a salvo!”
“E?”
“A professora Matias revirou os olhos, Pedro. Revirou-os mesmo. Disse: ‘Dona Inês, é insalubre alimentar as mentiras do rapaz. Se o pai dele é um segurança ou está ausente, diga-o. Temos recursos para mães solteiras. Mas não deixe que ele perturbe a minha aula com histórias de helicópteros e missões secretas. É patético.'”
Patético.
A palavra ecoou no refúgio vazio, mais alta que o vento lá fora.
“Ela disse ao Martim”, sussurrou a Inês, a dor na voz a cortar-me como uma faca. “Disse-lhe que, se mentisse mais uma vez, estava fora. Fez-o ficar em frente à turma e pedir desculpa por ‘inventar histórias’. O nosso filho perguntou-me… perguntou se o Rodrigo tinha razão. Perguntou se estás na prisão. Acha que não o amas.”
Algo dentro de mim partiu-se. Não era a raiva de um soldado, mas a fúria primária de um pai. Olhei para o relógio. A equipa de extração estava marcada para as 6h da manhã seguinte. A missão estava concluída. Os alvos neutralizados. Tecnicamente, tinha licença a partir de 48 horas.
Mas 48 horas era demasiado. O meu filho sangrava emocionalmente, e eu não estava lá para estancar a ferida.
“Inês”, disse, a voz baixa e perigosamente calma. “Quando é a próxima assembleia da escola?”
“Sexta-feira”, fungou. “O ‘Dia do Desporto’ no campo de futebol. Toda a escola estará lá. Porquê?”
“Não te preocupes com o porquê. Apenas garante que o Martim lá está. E que veste a sua melhor roupa. Diz-lhe… diz-lhe que a Sombra está a chegar.”
“Pedro, o que vais fazer?”
“Vou ensinar à professora Matias uma lição sobre a realidade.”
Desliguei. Depois, marquei um número que poucos conhecem. Era a linha direta para o General Costa.
“Comandante”, respondeu o Costa logo ao primeiro toque. “Situação?”
“Objetivo cumprido. Pacote seguro”, disse. “Mas preciso de um favor, senhor. Um grande. E preciso do pássaro.”
“O pássaro? Queres dizer o transporte?”
“Não, senhor. Preciso do EH-101. E preciso de autorização para um desvio.”
“Para onde, soldado?”
“Para uma pequena escola primária em Lisboa. Tenho uma apresentação de ‘mostra e conta’ para assistir.”
Houve um longo silêncio do outro lado. Depois, uma risada. “Isto é por causa do miúdo?”
“Sim, senhor.”
“Tens luz verde. Faz uma entrada, filho. Faz-nos orgulhar.”
*Continua…*





