Riram da Minha Jaqueta, Até Que Um General Caiu de Joelhos e Revelou a Verdade6 min de lectura

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Capítulo 1: A Armadura de Fantasmas

O casaco cheirava a sabão velho, óleo de armas e ao fundo de um armário que não era aberto há anos. Era um cheiro complexo—uma mistura de aspereza metálica e conforto empoeirado que subia ao nariz cada vez que eu enterrava o rosto no colarinho. Para todos na Escola Básica do Vale do Tejo, aquilo era um monstro. Uma tenda desbotada e suja que me engolia por completo. Para mim, era a única coisa que mantinha as minhas moléculas unidas.

Eu tinha dez anos e estava a afogar-me.

Todas as manhãs, a rotina era a mesma. A minha mãe ficava na cozinha, a encarar uma torrada que não comia, os círculos escuros sob os seus olhos parecendo nódoas negras na luz crua da manhã. Eu vestia-me em silêncio, calçava os meus jeans e os meus ténis, e depois dirigia-me ao cabide. Puxava a pesada lona sobre os ombros. As mangas eram tão compridas que ultrapassavam os meus dedos em vários centímetros, pedaços de tecido inúteis que tornavam difícil segurar um lápis. A barra batia-me perto dos tornozelos. Eu não andava—arrastava-me. Parecia uma criança a brincar às escondidas num cenário de guerra. Mas não me importava. Quando o fechava, o mundo ficava mais silencioso. Seguro.

As gozações começaram no momento em que saí do autocarro amarelo.

“Olhem só,” anunciou Joana Barros, a voz tão aguda que poderia partir vidro. Estava encostada aos cacifos, rodeada pelo seu grupo de clones em casacos de vento pastel. “A sem-abrigo está de volta. Encontras-te isso no lixo atrás do Humana, Leonor? Ou desenterraste-o?”

Eu mantinha a cabeça baixa, a olhar para os ladrilhos do chão desgastados. Pé esquerdo, pé direito. Apenas chegar à sala de aula. Não reagir. Não chorar.

“Isso é ofensivo, na verdade,” disse Pedro Mendes. Era o tipo de miúdo que decorava regulamentos só para acusar os outros. Posicionou-se à minha frente, bloqueando o caminho para a sala 4B. Cruzou os braços, inflando o peito. “O meu pai diz que usar equipamento militar sem o teres merecido chama-se ‘Valor Roubado’. É ilegal, Leonor. És literalmente uma criminosa.”

“Não… não é ilegal,” murmurei, a voz presa no colarinho de lã. “É do meu pai.”

Pedro riu-se, um som cortante que chamou a atenção dos alunos mais velhos. “Ah, sim. O teu pai? Aquele que nunca aparece em nada? Deve tê-lo comprado numa loja de excedentes para parecer fixe. Falso. Só como tu.”

Eles não sabiam. Nenhum deles sabia. Não sabiam da batida na porta há três meses. Não sabiam dos dois homens de uniforme na varanda, os rostos máscaras solenes de pesar profissional. Não sabiam da bandeira dobrada na lareira ou da forma como a minha mãe ficava na cozinha no escuro, a olhar para o nada, esquecendo-se de acender as luzes quando o sol se punha.

Agarrei as pontas do casaco com mais força. Dentro, junto ao forro, ainda conseguia sentir o cheiro dele. Um traço de pastilha elástica de menta e chuva. Se respirasse fundo, ele estava a acompanhar-me à escola. Se fechasse os olhos, segurava a minha mão, a palma áspera quenta contra a minha.

“Deixa-a em paz, Pedro,” uma voz calma disse ao lado. Era a Sofia, uma rapariga da minha turma de artes, mas não se aproximou. Parecia apenas desconfortável.

“Estou só a defender os nossos militares,” Pedro zombou, puxando a manga do meu casaco com força. “Tira isso, Leonor. Pareces ridícula.”

Afastei-me, o tecido esticando-se. “Não.”

“Lixo,” Joana murmurou enquanto eu passava por eles. “Lixo completo.”

Usei-o todos os dias. No calor sufocante de setembro, transpirando por baixo da camisola, gotas a escorrerem-me pelas costas, mas nunca o tirei. Era a minha armadura. Sem ele, eu era apenas uma menina sem pai, sem voz. Com ele, era a filha do Sargento Ferreira. Mesmo que mais ninguém acreditasse.

Capítulo 2: O General Chega

Depois veio a Assembleia do Dia do Veterano.

O ginásio era uma caixa húmida de barulho. Os bancos de metal gemiam sob o peso de quinhentas crianças inquietas. O ar cheirava a cera de chão, fiambre requentado e ansiedade adolescente. Eu sentava-me no canto mais alto, tentando tornar-me invisível contra a parede de tijolo. Joana e o seu grupo estavam duas filas à frente, a atirar-me pipocas quando os professores não viravam.

“Olá, soldado,” Joana assobiou, olhando para trás. “Vais descer e fazer continência? Talvez te deem uma medalha por ‘Melhor Fantasia’.”

As risadas espalharam-se como um vírus. O meu rosto ardia. Puxei o colarinho para cima, escondendo os olhos. Queria desaparecer. Que o chão me engolisse a mim e ao casaco. Tracei a costura do bolso com o dedo. *Segura-te*, disse a mim mesma. *O pai quer que sejas corajosa.*

“Silêncio! Silêncio, todos!” a voz da diretora Maria Silva ecoou pelo sistema de som, cortando o alvoroço. “Hoje, temos um convidado muito especial. Um herói que serviu o nosso país durante trinta anos. Recebam… o General Marco Duarte.”

As portas duplas abriram-se com um baque dramático.

O ginásio não ficou calmo—ficou mudo. Um silêncio de vácuo. Até os mais irrequietos pararam.

O General Duarte entrou. Era assustador. Era uma montanha de homem, quatro estrelas a brilhar nos ombros sob a luz fluorescente. O uniforme estava engomado com vincos tão afiados que se poderia cortar neles. Não caminhava—marchava, absorvendo o espaço entre a porta e o pódio com um passo que impunha respeito. Tinha uma cicatriz na linha do maxilar, cabelo prateado cortado rente e olhos que pareciam ter visto o fim do mundo e sobrevivido.

Aproximou-se do microfone. Ajustou-o sem olhar. Percorreu os alunos com o olhar. Não sorriu.

“A liberdade,” começou, a voz grave a vibrar no meu peito, “não é gratuita. Paga-se com sangue, suor e com as cadeiras vazias à mesa por toda esta nação.”

Era cativante. Até o Pedro parou de brincar com os atacadores. O General falava de honra, sacrifício, dos irmãos que perdera em lugares que nem sequer encontrávamos no mapa. Falava de dever.

E então, aconteceu.

Ele percorria o ginásio com o olhar, falando de coragem perante o medo.

“Defendemos os que não podem defender-se…” ele disse, e depois, parou.

A meio da frase.

Congelou.

O silêncio prolongou-se, pesado. A diretora parecia nervosa. Os professores trocavam olhares confusos. O General esquecera-se do discurso? Estaria doente?

Mas o General Duarte não olhava para as notas. Não olhava para a diretora. Olhava para cima.

Bem para cima.

Diretamente para o meu canto.

Os seus olhos, antes firmes como pedra, perderam cor. A boca abriu-se ligeiramente, depois fechou. Franziu o sobrolho, como se não acreditasCom o tempo, aprendi que a verdadeira coragem não está nas estrelas de um uniforme, mas no amor que nos une mesmo quando o mundo tenta separar-nos.

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