Sogra riu do meu pai no casamento — ela não fazia ideia de quem ele realmente era5 min de lectura

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Estava no meio de um salão de luxo em Lisboa, vestindo um fato que custara mais do que o meu velho carro, e ainda assim sentia-me como o homem errado no filme errado. Chamo-me Diogo, vinte e oito anos, trabalhador num armazém, e aquela noite devia ser o meu grande casamento com Alice Mendonça, o tipo de mulher cujo sobrenome abre portas neste país.

Havia mais de quinhentos convidados. Políticos. Donos de empresas. Pessoas influentes que só via na televisão. Lustres de cristal brilhavam sobre as suas cabeças enquanto falavam de férias no Algarve, investimentos e novos projetos. Repetia a mim mesmo para respirar e sorrir, como se aquela fosse realmente a minha vida agora.

Foi então que vi o meu pai.

Entrou discretamente por uma porta lateral, como se não quisesse incomodar, com o mesmo fato velho que comprara há mais de dez anos. Os sapatos estavam gastos nas pontas. Os ombros, um pouco curvados de tanto trabalhar na pequena quinta que tínhamos nos arredores da cidade. Ficou perto da saída de emergência, de mãos cruzadas, tentando não chamar atenção num lugar que gritava dinheiro.

Os olhos dele, porém… os olhos brilhavam. Orgulhosos. Um pouco nervosos. Era o homem que me criara sozinho depois da minha mãe partir. O homem que trabalhava de madrugada até à noite para que eu pudesse estudar. Vê-lo ali, tão deslocado, apertou-me o peito.

Ia a caminho dele para o trazer para a primeira fila, onde pertencia, quando ouvi.

Uma risada. Depois outra.

Um grupo de convidados virara-se para olhá-lo.

“Quem é aquele?” sussurrou uma mulher, sem a discrição que imaginava. “Parece que veio directamente do campo.”

Sorriam sem sorrir. Olhavam de alto a baixo o seu fato. Um leve abanar de cabeça. O tipo de olhar que diz tudo.

O meu rosto ardia.

O meu futuro sogro, Brás Mendonça, olhou na nossa direção do seu círculo de amigos importantes. Observou o meu pai uma vez, franziu a testa como se alguém tivesse deixado lama no chão bem encerado, e voltou à conversa.

A minha futura sogra, Esmeralda, soltou uma risadinha que não chegou aos olhos.

“Os meus futuros parentes são um pouco… modestos,” disse suavemente às mulheres à sua volta. “Só espero que ele se sinta confortável num lugar como este.”

Todas riram. A gargalhada cravou-se no meu peito.

Dei um passo na direção do meu pai, mas os dedos de Alice apertaram-me o braço.

“Diogo, não,” murmurou ela, baixinho. “Por favor, não arranjes problemas. Hoje já é suficientemente difícil.”

“É o meu pai,” disse em voz baixa.

“Eu sei,” respondeu, os olhos ainda nos convidados. “Deixa-o ficar ali. Falaremos com ele mais tarde.”

Do outro lado da sala, o meu pai encontrou o meu olhar e fez um ligeiro aceno de cabeça, um sorriso pequeno que doeu mais do que qualquer palavra deles.

Está tudo bem, filho. Não te preocupes comigo.

Depois, vieram as fotografias.

“Família no palco, por favor!” chamou o fotógrafo.

Insisti que o meu pai viesse para a frente.

“Pai, vem ficar comigo,” disse-lhe, estendendo a mão.

Hesitou, mas começou a caminhar pelo chão reluzente, os sapatos velhos fazendo sons suaves e desiguais que, de algum modo, pareciam mais altos que a música. Os Mendonças moveram-se quase em sincronia, só uns centímetros, o suficiente para abrir espaço sem realmente o deixarem entrar.

Foi então que o irmão mais novo de Alice abriu a boca.

Inclinou-se para os amigos e falou alto o suficiente para toda a sala ouvir.

“É mesmo o pai dele?” disse. “Parece que se enganou no caminho para a entrada de serviço.”

Uns riram-se. Alguém até lhe bateu nas costas, como se fosse a piada mais engraçada da noite. Até Alice tremulou os ombros com uma risada que tentou engolir.

O meu pai congelou por meio segundo, depois forçou um sorriso e continuou a caminhar na minha direção.

Algo dentro de mim partiu-se.

Deixei cair o buquê. Bateu no chão com um estalo que cortou a música.

“Estou a cancelar o casamento,” disse.

Por um momento, ninguém se moveu. Ninguém respirou. O salão inteiro pareceu inclinar-se.

Depois, o barulho explodiu.

Alice virou-se para mim, o rosto branco, depois vermelho.

“Diogo, o que estás a fazer?” gritou. “Não podes dizer isso. Não aqui. Não agora.”

A voz do seu pai abafou a dela.

“Pedes desculpa,” ordenou. “Não vais envergonhar esta família hoje à noite.”

As pessoas levantaram-se. Telemóveis apareceram. O meu sobrenome, o meu trabalho, a minha roupa—tudo sobre mim estava sob julgamento à frente de quinhentos estranhos.

Foi então que o meu pai se aproximou de mim. A mão dele encontrou o meu braço, leve mas firme.

“Filho,” disse baixinho, “desculpa. Eu estar aqui só complicou as coisas. Não deites o teu futuro fora por minha causa. Já tive noites piores. Vou ficar bem.”

Olhei para ele—o mesmo fato velho, as mesmas mãos cansadas, o mesmo homem que nunca uma vez me virou as costas.

“Podem dizer o que quiserem de mim,” disse, a voz a tremer mas finalmente alta o suficiente para todos ouvirem. “Aguento. Mas não têm o direito de tratar o meu pai como se não valesse nada. Não hoje. Nem nunca.”

Agarrei a mão dele à frente de todos.

Saímos daquele palco juntos, descendo o corredor, passando pelos lustres, pelos olhares, pelos sussurros chocados.

Deixámos o hotel, entrámos na noite fresca de Lisboa e conduzimos de volta à pequena casa onde crescera. O fato não combinava ali, mas o meu coração sim.

Mais tarde, sentados em frente à lareira antiga, o meu pai observou as chamas por muito tempo antes de se virar para mim.

“Diogo,” disse devagar, “há algo que devia ter-te dito há muito tempo. Não sou exatamente o simples agricultor que pensas que sou…”

E naquele momento, soube que a minha vida estava prestes a mudar outra vez.

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