PARTE 1: A HUMILHAÇÃO
Tudo começou numa terça-feira. As manhãs de terça na Escola Básica do Vale do Carvalhal cheiravam sempre a cera de chão industrial, pizza requentada da cantina e desespero. Eu estava sentada no fundo da sala da professora Carminho, tentando tornar-me invisível, a fundir-me com o plástico bege da carteira.
O trabalho era simples, ou pelo menos devia ser: «Profissões em Família». Tínhamos de apresentar um discurso de três minutos sobre a profissão dos nossos pais e levar um «objeto representativo». Era o tipo de tarefa que só servia para acentuar as diferenças sociais na nossa zona, mas os professores nunca admitiriam isso.
«O meu pai é cirurgião-chefe no Hospital de Santa Maria», anunciou o Tiago Mendes, inchando o peito. Segurava um estetoscópio como se fosse um cetro real. «Ele salva vidas todos os dias.»
«A minha mãe tem uma agência imobiliária», cantou a Sara Lopes, sacudindo o cabelo. «Ela vende os apartamentos mais caros de Lisboa.»
E assim continuou. Médicos, advogados, engenheiros, gestores de fundos de investimento. Um desfile de vencimentos a cinco dígitos e vidas estáveis. Até que chegou a minha vez.
«Inês? É a tua vez», disse a professora Carminho, espreitando por cima dos óculos.
Levantei-me, com os joelhos a bater um no outro. Fui até à frente da sala, agarrada a uma pequena moeda militar desgastada com um tridente gravado. Não tinha PowerPoint, nem discurso ensaiado.
«A minha mãe… a minha mãe é da Marinha», disse, baixinho.
«Fala mais alto, Inês», incentivou a professora, com um sorriso amável.
Respirei fundo, tentando encontrar um pouco daquela firmeza que via nos olhos da minha mãe quando ela pensava que eu não reparava. «A minha mãe é uma operacional da Marinha», disse, a voz a tremer mas clara. «Ela trabalha em operações especiais.»
A sala ficou em silêncio por exatamente um segundo. Aquele tipo de silêncio pesado que antecede a tempestade. Depois, veio a gargalhada.
«Ah, pois é!», berrou o Tiago lá do fundo, recostando-se na cadeira com um sorriso que me deu vontade de gritar. «Não há mulheres nas operações especiais! Isso é contra as regras ou lá o que é. Quer dizer, ela vende conchinhas na praia?»
A turma inteira rebentou a rir. Não eram risinhos, era uma gargalhada cruel e afiada que me cortou como uma faca. Até a professora Carminho soltou uma risadinha nervosa, provavelmente achando que eu inventara uma fantasia para lidar com uma mãe ausente.
«Isso foi… muito criativo, Inês», disse a professora, acenando para eu me sentar. «Mas vamos tentar manter-nos no mundo real, sim?»
«Não estou a mentir», murmurei, mas ninguém me ouviu por causa das gargalhadas.
«Ela também luta contra zombies no Call of Duty?», gozou alguém.
Afundei-me na cadeira, rotulada de mentirosa. A cara ardia-me como se estivesse em chamas. Não chorei—a minha mãe ensinou-me melhor do que isso. «Controla a respiração, Inês. O pânico é o inimigo», ela dizia. Mas a vergonha doía mais do que qualquer ferida física. Olhei para a moeda na minha mão, apertando-a até as bordas me cortarem a pele.
Eles não sabiam das noites longas. Não sabiam das vezes que ela chegava a casa com ligaduras que tentava esconder. Não sabiam que, enquanto os pais deles estavam em tribunais ou a mostrar apartamentos, a minha mãe estava em sítios que não aparecem nos mapas, a fazer coisas que dariam pesadelos aos pais deles.
Mas eu não lhes podia explicar isso. Só tinha de engolir e aguentar.
PARTE 2: A INVESTIDA
Na manhã seguinte, o ambiente na escola estava pesado. O céu cinzento lá fora combinava com o meu humor. Caminhei pelo corredor de cabeça baixa, evitando olhar para ninguém. Ouvi os sussurros. «Lá vai a contadora de histórias.» «Pergunta-lhe se a mãe também é a Supermulher.»
Estava na aula de História, a olhar pela janela para o estacionamento molhado, quando o intercomunicador tocou. Não eram os anúncios habituais. Foi um estalido agudo de estática que fez toda a gente saltar.
«Código Vermelho. Lockdown. Isto não é um exercício. Repito, Código Vermelho. Professores, fechem as salas.»
A voz da diretora tremia.
As gargalhadas pararam imediatamente. O sorriso desapareceu da cara do Tiago Mendes. Num instante, a sala de aula passou de um espaço entediante para uma jaula de terror. A professora Carminho deixou cair o marcador.
«Okay, todos para o canto. Agora! Em silêncio!», sussurrou, trancando a porta e apagando as luzes.
Agrupámo-nos num canto, atrás da secretária da professora, um emaranhado de corpos trémulos e respirações aterrorizadas. Algumas raparigas choravam em silêncio. O Tiago respirava ofegante, agarrado aos joelhos.
Senti um nó gelado no estômago, mas, estranhamente, a minha mente ficou clara. Avaliar. Adaptar. A voz da minha mãe ecoou na minha cabeça. Examinei a sala. A porta era de madeira, frágil. As janelas davam para o pátio. Estávamos vulneráveis.
Passaram-se dez minutos. Pareceram dez anos.
Depois, ouvimo-lo.
Começou como um ruído distante, depois transformou-se num trovão ritmado. Botas pesadas. Muitas. A correr em uníssono pelo corredor. *Tum-tum-tum-tum*.
Gritos começaram ao longe, mas foram abruptamente cortados.
«Eles estão a vir», sussurrou a Sara, com lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.
Os passos pararam mesmo à nossa porta.
Segurámos a respiração. A maçaneta não mexeu. Não houve batida.
*BAM!*
A porta não se abriu—foi obliterada. Voou para dentro, arrancada das dobradiças com um estrondo ensurdecedor, batendo no quadro branco.
Seis figuras invadiram a sala. Eram apavorantes. Vestidos de preto, equipamento tático completo—capacetes, viseiras, coletes à prova de bala, armas de assalto com silenciadores apontados para cima. Os lasers vermelhos cortavam a escuridão como víboras.
«MÃOS! DEIXEM-ME VER AS MÃOS!», rugiu uma voz atrás de uma máscara de gás. Distorcida, mecânica, e absolutamente autoritária.
Gritámos. Não deu para evitar. Era o fim.
A equipa moveu-se com fluidez, verificando os cantos, protegendo o perímetro. Eram uma máquina. Um deles, o ponto da frente, aproximou-se do nosso grupo. O laser da arma baixou, não apontando para nós, mas garantindo que o espaço era seguro.
A figura parou mesmo à minha frente. Os outros operacionais formaram um semicírculo, protegendo a porta.
O líder baixou a arma. Respirava com dificuldade, o som amplificado pelo rádio tático no peito. Levantou a mão e soltou a correia do capacete.
Com um puxão seco, o capacete saiu.
Cabelo escuro e comprido caiu-lhe sobre os ombros, molhado de suor.
Era ela.
O rosto estava manchado de tinta deA partir daquele dia, ninguém mais duvidou que a mãe da Inês era capaz de enfrentar até os piores pesadelos—e que, no fundo, todos estávamos um pouco mais seguros por causa disso.





