O céu de Lisboa naquela manhã tinha uma melancolia azul desbotada, como se a cidade soubesse que algo na vida de Ricardo Mendes se havia quebrado para sempre.
Fazia apenas três meses desde que o milionário, fundador de uma das maiores empresas tecnológicas do país, se mudara para a sua nova mansão em Cascais com a sua recém-casada esposa, Joana Neves, após um divórcio longo, público e doloroso. A imprensa cobrira tudo: as disputas judiciais, as fotos roubadas, as teorias sobre infidelidades. Quando enfim se anunciou que Ricardo tinha uma nova esposa, a narrativa mudou: *O magnata volta a encontrar o amor.*
Por fora, Joana era perfeita.
Sorriso impecável, roupas elegantes sem ostentação vulgar, presença encantadora em eventos beneficentes, palavras doces sempre que uma câmara se aproximava dela e das crianças: Maria, de seis anos, sempre com as tranças bem feitas, e Tiago, de dois, agarrado ao seu ursinho de pelúcia.
*—São a minha prioridade —* dissera Joana numa entrevista à porta da mansão, abraçando Maria enquanto Tiago escondia o rosto no seu pescoço. *— Amo-os como se fossem meus.*
A cidade aplaudiu.
Ricardo quis acreditar.
Precisava de acreditar.
Depois de um casamento que se tornara uma guerra fria, a ideia de uma mulher que trouxesse estabilidade e calor à sua casa era um alívio. Joana aparecera num congresso internacional sobre inovação e responsabilidade social, brilhante, articulada, com opiniões firmes sobre educação e família. Ele caiu quase sem perceber.
Mas as fachadas não duram para sempre quando se fecha a porta.
Foi Maria quem deixou cair a primeira fissura.
*—Pai, vais sair outra vez? —* perguntou uma noite, com voz muito baixinha, segurando a ponta do seu casaco.
Ricardo, já com a pasta na mão e o motorista à espera para o levar ao aeroporto, ajoelhou-se diante dela.
*—São só dois dias, florzinha. Tenho reuniões no Norte. A Joana vai ficar com vocês. Vão ficar bem.*
Maria hesitou. Os seus grandes olhos castanhos pareciam procurar algo no rosto do pai. Depois, como se tivesse decidido algo, anuiu, mas não sorriu. Tiago, nos braços de Joana, chupava o dedo, calado.
*—Não sejas dramática, Maria —* interveio Joana com tom suave mas afiado. *— O teu pai trabalha muito por nós todos. Vai acabar os trabalhos de casa.*
Ricardo ignorou o fio cortante na sua voz. Atribuiu-o ao stress. Despediu-se, beijou as crianças, abraçou Joana e partiu.
Os dois dias tornaram-se quatro por atrasos, depois seis. Quando regressou, as crianças estavam estranhamente caladas.
Maria já não correu para os seus brazos como antes.
Tiago já não levantou os braços a pedir colo.
Apenas o olharam, sérios.
*—Estão bem? —* perguntou ele, tentando soar despreocupado.
*—Claro —* respondeu Joana com um sorriso perfeito. *— Estão um pouco sensíveis, mas é normal, ainda estão a adaptar-se.*
Ricardo quis acreditar novamente.
Até começar a reparar nos detalhes.
Maria saltou quando alguém levantou a voz na televisão.
Tiago escondia comida nos guardanapos.
Uma noite, Ricardo encontrou o filho sentado no chão, com o prato quase intacto.
*—Campeão, não tens fome?*
Tiago abanou a cabeça sem o olhar.
*—A Joana diz que já comi —* sussurrou.
Ricardo franziu a testa.
Foi à cozinha. Joana arrumava os frascos como se fossem peças de um puzzle perfeito.
*—O Tiago não quer jantar?*
*—Já comeu —* respondeu ela sem se virar. *— Está a aprender a não desperdiçar. Os teus filhos estavam mal habituados, Ricardo. A tua ex-mulher mimou-os demais.*
A frase trespassou-o. Apertou o mandíbula, mas não respondeu. Em vez disso, ficou acordado até tarde, a rever e-mails, mas com a mente presa nos olhos apagados dos filhos.
Nos dias seguintes, a inquietude cresceu.
Maria andava com cuidado, como se o chão a pudesse trair.
Joana corrigia-lhe cada gesto.
*—Não te encolhas.*
*—Não fales tão alto.*
*—Não mexas nisso, vais partir.*
*—Não chores por tudo, Maria, pareces um bebé.*
Tudo dito com sorriso se Ricardo estivesse por perto.
Com veneno quando ele se virava.
Havia outra presença na casa que Ricardo começou a notar: Sofia.
A jovem empregada doméstica fora contratada pouco depois da mudança. Devia ter vinte e cinco anos, cabelo escuro preso num rabo de cavalo simples, olhar doce, mãos ágeis. Era eficiente, invisível quando devia, mas os seus olhos suavizavam-se quando olhava para as crianças.
Mais de uma vez, Ricardo viu-a oferecer discretamente mais puré a Tiago quando julgava que ninguém olhava. A Maria, um biscoito escondido num guardanapo.
*—Come devagarinho, meu amor —* murmurava. *— Não há problema.*
Joana, quando a apanhava, torcia a boca.
*—Não queremos crianças gordas, Sofia —* dizia com doçura gelada. *— Aqui seguimos dietas equilibradas. Faz só o que te peço.*
Sofia baixava a cabeça, mas algo endurecia na sua expressão quando Joana se afastava.
Ricardo via.
Ricardo começava, pela primeira vez em muito tempo, a duvidar do seu próprio julgamento.
Uma noite, ouviu um choro abafado. Eram quase onze da noite. Joana dormia ao seu lado, imóvel, como uma estátua perfeita.
Ricardo levantou-se sem acender a luz. Seguiu o som até ao corredor. Parou à porta do quarto de Maria.
Abriu devagar.
Ela estava sentada na cama, abraçando os joelhos, com o rosto escondido.
*—Maria —* sussurrou ele. *— Querida, o que se pass—Não é nada — sussurrou ela, esfregando os olhos vermelhos —, a Joana disse que não posso incomodar.





