Uma Desavença, um Abandono e o Segredo da Mulher Mais Rica da Cidade6 min de lectura

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A chuva fria já tinha encharcado o casaco de Beatriz Mendes quando o marido, Rodrigo, bateu a porta do carro e partiu. As palavras dele ainda ecoavam—”Não és nada sem mim.”

Ela ficou parada no ponto de ônibus vazio, a rímel escorrendo, o coração acelerado. O telemóvel e a carteira tinham ficado no carro, quando ele saiu em fúria depois de mais uma discussão sobre a sua “falta de ambição.”

Uma voz frágil quebrou o silêncio. “Menina, estás com um ar de fantasma deixado ao relento.”

Beatriz virou-se. Uma senhora idosa, com uma bengala branca dobrada ao lado, estava sentada calmamente sob a marquise. Um lenço de seda enquadrava o seu rosto pálido, os olhos sem visão escondidos atrás de óculos escuros.

“Estou bem,” murmurou Beatriz, abraçando-se.

“Não estás,” respondeu a mulher com suavidade. “Finge que és minha neta. O meu motorista chega já.”

Antes que Beatriz pudesse perguntar, um carro preto e elegante estacionou. Um homem de fato saiu, segurando um guarda-chuva.

“Aqui está, Dona Isabel,” disse ele. “E esta deve ser—?”

“A minha neta,” interrompeu a senhora com naturalidade. “Beatriz.”

Beatriz congelou, surpresa. O homem sorriu educadamente e abriu a porta. A idosa agarrou a mão dela com firmeza.

“Vem, querida,” sussurrou. “O teu marido vai arrepender-se de te deixar com a mulher mais rica da cidade.”

Beatriz achou que fosse uma piada estranha—talvez uma excentricidade de velhice—mas obedeceu.

Dentro do carro aquecido, Dona Isabel pediu ao motorista que as levasse para a sua casa nas colinas com vista para o Douro.

Quando chegaram, Beatriz já sabia que a mulher se chamava Isabel Almeida, viúva de um magnata bancário, conhecida na região pelas suas obras de caridade.

Isabel dispensou os empregados com um gesto. “Podes ficar esta noite,” disse simplesmente. “Amanhã conversamos.”

Beatriz olhou em volta, para os pisos de mármore e os retratos a óleo. “Dona Isabel, eu não posso—”

“Podes,” interrompeu Isabel. “E vais. Ninguém deixa a família ao relento.”

Naquela noite, enquanto Beatriz descansava num quarto de hóspedes com lençóis de seda, percebeu que Isabel não estava a brincar.

A luz da manhã entrou pelas janelas altas. Beatriz acordou com uma bandeja de pequeno-almoço e um bilhete à mão:

“Encontra-me no jardim às nove. —I.A.”

Isabel já estava sentada entre os arbustos aparados quando Beatriz chegou. Indicou o banco ao lado.

“Tu lembras-me a minha neta,” começou Isabel. “Ela morreu jovem—demasiado coração, pouca proteção.”

Beatriz permaneceu calada, sem saber como reagir.

Isabel virou o rosto para o sol. “Diz-me, o que planeias fazer agora?”

Beatriz hesitou. “Não sei. O Rodrigo levou tudo. Não tenho para onde ir.”

A idosa acenou lentamente. “Então começa aqui. Trabalha para mim.”

Beatriz pestanejou. “Trabalhar para si? A fazer o quê?”

“Aprender,” respondeu Isabel, simplesmente. “Eu não contrato empregadas. Eu ensino sobreviventes.”

Nas semanas seguintes, Beatriz tornou-se assistente de Isabel—lia para ela, gerenciava chamadas, cuidava das doações. O trabalho era exigente, mas Isabel era paciente, perspicaz e discretamente implacável nos negócios. Ensinou Beatriz sobre negociação, investimento e auto-respeito.

“As pessoas vão subestimar-te,” disse Isabel numa tarde. “Deixa que o façam. Depois faz com que se arrependam.”

O advogado de Isabel, Nuno Carvalho, começou a notar o talento de Beatriz. “Tens jeito para finanças,” comentou. “A Isabel está a preparar-te para algo.”

Beatriz riu, mas ele não estava enganado. Isabel tratava-a não como uma empregada, mas como uma herdeira em treino.

Três meses depois, Rodrigo apareceu na mansão de Isabel, bem barbeado e com um sorriso nervoso.

“Beatriz! Meu Deus, procurei-te por todo o lado.”

Isabel estava sentada na varanda quando ele chegou. “Ah, o marido que deixa a mulher ao relento,” disse com frieza. “Que poético.”

O sorriso de Rodrigo vacilou. “Olha, cometi um erro. Só quero falar com a minha mulher.”

Isabel inclinou a cabeça. “Queres dizer a minha assistente. Ela está ocupada.”

Beatriz saiu, calma e composta. “O que queres, Rodrigo?”

“Recomeçar,” suplicou. “Eu mudei.”

Ela encarou-o—firme, impenetrável. “Eu também.”

Quando ele esticou a mão, o motorista de Isabel interveio. “Chega, senhor.”

A expressão de Rodrigo endureceu. “Achas que agora és melhor que eu?”

“Não,” disse Beatriz, suavemente. “Mas finalmente sei o meu valor.”

Isabel sorriu quando ele saiu em fúria. “Eu disse que ele se arrependeria,” murmurou.

Um ano depois, Beatriz estava ao lado da cama de Isabel no hospital. A saúde da idosa piorara rapidamente, embora a mente permanecesse afiada.

“Deste-me mais paz do que eu esperava,” sussurrou Isabel. “Quero que continues o que eu comecei.”

“Não fales assim,” disse Beatriz, segurando as lágrimas.

Mas Isabel apenas sorriu. “Promete-me que nunca deixarás que a pena dite o teu caminho.”

Quando Isabel faleceu naquela noite, Beatriz sentiu que perdera a sua verdadeira família.

Dias depois, Nuno Carvalho chamou-a ao escritório. Na mesa, estava um envelope grosso com a caligrafia de Isabel.

“A Dona Isabel alterou o testamento no mês passado,” disse. “Deves ver isto.”

Dentro, Beatriz encontrou uma carta:

“À Beatriz Mendes—
Entraste na minha vida como uma estranha e tornaste-te a neta que sempre desejei.
Deixo-te a Fundação Almeida e os recursos para a reconstruíres à tua imagem.
Usa-os com sabedoria. Muda vidas como a tua foi mudada.
—Isabel Almeida.”

Beatriz ficou atónita. “Isto não pode estar certo.”

Nuno confirmou. “É perfeitamente legal. Agora és a administradora.”

Os meios de comunicação entraram em fúria quando a notícia se espalhou—Isabel Almeida deixara a sua fortuna a uma jovem sem laços familiares. Jornalistas acamparam à porta. Velhos conhecidos telefonaram, fingindo “reconectar.” Até Rodrigo reapareceu, desta vez com um advogado.

Tentou alegar manipulação emocional, exigindo parte da herança. O caso tornou-se público, mas os registos meticulosos de Isabel—e a lealdade de Nuno—destruíram as suas alegações.

No tribunal, Beatriz enfrentou-o uma última vez.

“Rodrigo,” disse, com voz firme, “deixaste-me num passeio molhado porque me consideravas fraca. Agora estás aqui porque já não sou.”

Ele não respondeu.

Quando o juiz arquivou o caso, Beatriz saiu livre.

Sob a sua direção, a Fundação Almeida expandiu-se para programas que ajudavam mulheres em situações de violência doméstica, oferecendo educação, habitação e formação profissional. Ela impôs uma regra: cada candidata deveria ajudar outra mulher assim que conseguisse progredir.

Anos mais tarde, numa cerimónia pública, uma jornalista perguntou: “J”Olhou para a estátua de bronze de Isabel sentada com a sua bengala e completou: ‘Porque ela sabia que sempre vale a pena estender a mão a quem precisa’.”

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