“Papi, ajuda”, suplicou a menina ao ver a mulher. O engenheiro de software não sabia que aquela noite gelada mudaria sua vida. “Pai, para. O bebê dela está congelando.” Bernardo continuou andando, puxando Inês pela mão. “Querida, não podemos ajudar todo mundo, por favor.” Inês soltou sua mão e correu para o banco. Bernardo virou-se.
Uma jovem estava sentada no banco coberto de neve, abraçando um embrulho contra o peito. Suas roupas estavam rasgadas, seu rosto pálido como a neve. Inês ajoelhou-se diante dela. “Senhora, está bem?” A mulher levantou a cabeça lentamente. Seus olhos vazios encontraram os de Inês. “Meu bebê…” Sua voz quebrou. “Ele não chora mais.” Bernardo sentiu seu coração parar.
Correu até elas e se ajoelhou. O bebê nos braços da mulher tinha os lábios azuis. “Meu Deus.” Tirou o casaco e colocou sobre a mulher. Depois enrolou seu cachecol vermelho ao redor do bebê. “Há quanto tempo estão aqui?” “Não… não sei.” As palavras mal saíam de seus lábios dormentes. Bernardo ajudou a mulher a se levantar. “Meu carro está perto. Precisamos ir ao hospital agora.” “Não, não posso.” “Seu bebê está morrendo.” A voz de Bernardo soou mais dura do que pretendia. “Entende?” A mulher assentiu, tremendo. Bernardo a ajudou a se levantar. Inês pegou a outra mão da mulher. “Vai ficar tudo bem”, sussurrou a menina.
No carro, Bernardo dirigiu acima do limite. Inês estava no banco de trás, segurando a mão da mulher. “Como se chama?” “Matilde.” “Eu sou Inês. E seu bebê?” “Tomás.” Uma lágrima escorreu pela face de Matilde. “Ele se chama Tomás.” “É um nome bonito.” Bernardo as observou pelo retrovisor. Inês sorria para Matilde com aquela doçura que herdara de sua mãe morta.
Chegaram ao hospital em dez minutos. Bernardo carregou Matilde pelo braço enquanto ela segurava o bebê. Inês correu à frente para abrir as portas. “Ajuda!” gritou Bernardo. “O bebê não responde!” Duas enfermeiras correram com uma maca. Tiraram o bebê dos braços de Matilde. “Quanto tempo ficou exposto ao frio?” perguntou uma enfermeira. Matilde não respondeu. Olhava fixamente para as portas por onde levaram Tomás.
“Não sei”, disse Bernardo. “A encontramos num parque.” “Precisamos de informações sobre o bebê. Idade, condições médicas, vacinas.” Matilde continuava imóvel. “Senhora…” A enfermeira tocou seu braço. “Precisamos de sua identificação.” “Não.” A palavra saiu como um sussurro aterrorizado. “É protocolo.” “Já disse que não!” Matilde recuou. Seus olhos eram selvagens.
Bernardo colocou-se entre ela e a enfermeira. “Dê um tempo a ela. Está em choque.” A enfermeira franziu a testa. “Senhor, se não cooperar, teremos que chamar a polícia.” “Eu assumo a responsabilidade.” Bernardo tirou a carteira. “Sou Bernardo Mendes. Cobrirei todas as despesas.” A enfermeira olhou o cartão que ele estendera. Seus olhos arregalaram ao ver o nome. “O CEO da Tecnosoft.” “Sim. Por favor, apenas ajudem o bebê primeiro, depois resolvemos a papelada.”
A enfermeira concordou e saiu. Bernardo virou-se para Matilde, que havia escorregado para o chão, tremendo. Inês sentou-se ao seu lado e pegou sua mão. “Tomás vai ficar bem. Os médicos aqui são muito bons. Salvaram minha avó quando teve um infarto.” Matilde olhou para a menina. Algo em seus olhos mortos parecia despertar. “Obrigada”, sussurrou.
Passou uma hora, depois duas. Inês adormeceu na cadeira da sala de espera, sua cabeça apoiada no ombro de Matilde. Bernardo observava as duas. Matilde não se movera todo esse tempo. Apenas olhava as portas fechadas da emergência, esperando.
Uma mulher alta de terno entrou na sala e Bernardo levantou-se. “Patrícia, sua secretária me ligou. Disse que você estava no hospital com uma mulher sem-teto.” Patrícia olhou para Matilde. “O que está acontecendo, Bernardo?” “Encontramos seu bebê congelando num parque e você decidiu trazê-la aqui em vez de chamar os serviços sociais.” “Era uma emergência.” Patrícia cruzou os braços. “Sou assistente social, irmão. Este é exatamente o tipo de situação que você deveria ter relatado.” “Eu sei. Mas Inês estava lá. E Inês…” Patrícia olhou para a menina adormecida. “Você expôs sua filha a isso.” “Ela insistiu em ajudar.” “Tem sete anos, não pode insistir em nada.”
Um médico saiu da emergência. Todos viraram-se. “Família de Tomás Silva?” Matilde levantou-se tão rápido que quase acordou Inês. “Sou a mãe dele.” “O bebê está estável. Teve hipotermia severa, mas respondeu bem ao tratamento. Também está desnutrido. Quando foi a última vez que comeu?” Matilde apertou os punhos. “Hoje de manhã, leite materno ou fórmula.” “Fórmula. Quanto?” “Duas onças.” O médico escreveu em sua prancheta. “Um bebê de três meses precisa de pelo menos quatro onças a cada três horas. Por que não?” “Porque não tinha mais.” A voz de Matilde soou oca. “Essas duas onças eram tudo o que me restava.”
Silêncio. Patrícia deu um passo à frente. “Doutor, sou Patrícia Mendes, assistente social. Posso falar com o senhor em privado?” “Claro.” Afastaram-se. Matilde deixou-se cair na cadeira novamente. Bernardo sentou-se diante dela. “Há quanto tempo você está na rua?” “Três semanas.” “E o pai do bebê?” Matilde fechou os olhos. “Não fale dele.” “Preciso entender…” “Não precisa entender nada.” Abriu os olhos e Bernardo viu puro terror neles. “Assim que puder carregar meu filho, irei embora. Obrigada pela ajuda, mas não pode se envolver.” “Já estou envolvido.” “Não está.” Ela apontou em volta. “Isto não é envolvimento, é caridade. E a caridade termina quando eu sair por aquela porta.”
Inês acordou e bocejou. “Tomás já saiu?” Matilde acariciou o cabelo da menina com mãos trêmulas. “Está bem, graças a você e ao seu pai.” “Vão ficar com a gente.” “Inês,” começou Bernardo, “por que não temos a casa de hóspedes no jardim? Ninguém a usa.” Bernardo olhou para a filha, depois para Matilde.
Patrícia voltou com o médico. “Senhora Silva, precisamos que preencha esses formulários. Nome completo, endereço, contato de emergência.” “Não posso.” “É obrigatório.” “Já disse que não posso.” Patrícia suspirou. “Se não cooperar, teremos que relatar isso às autoridades.” “Faça-o.” Matilde levantou-se. “Relatem-me, mas não preencherei nenhum papel. Não darão meu nome a ninguém. Entendem? A ninguém.” “Por quê?” perguntou Patrícia com voz mais suave. Matilde olhou para ela. Seus lábios tremiam. “Porque se ele descobrir onde estou, me matará e levará meu filho.”
Bernardo sentiu algo se partir em seu peito. Levantou-se. “Você ficará em minha casa, você e Tomás.” “Não posso.” “Não estou perg”E assim, naquele instante em que suas mãos se tocaram sob a luz do pôr-do-sol, Bernardo e Matilde entenderam que o verdadeiro lar não é feito de paredes, mas dos laços que criamos quando escolhemos ser refúgio um para o outro.”





