**Diário de Clara**
Trabalhei para a família Ferreira durante muitos anos. Todas as manhãs, polia os móveis até brilharem, esfregava cada canto daquela mansão imponente, preparava as refeições e garantia que tudo transpirasse paz e ordem. Era silenciosa, respeitosa e leal até demais. Para todos, eu era invisível—mas indispensável.
Com o tempo, aproximei-me do pequeno Tomás, o único filho de António Ferreira. A mãe dele falecera anos antes, deixando para trás um silêncio que eu, aos poucos, preenchi com carinho. António, o pai, era um homem sério—gentil à sua maneira, mas distante. A avó, Dona Margarita, governava a casa com frieza. Apesar de depender completamente de mim, nunca confiou em mim.
Então, uma manhã, aconteceu o desastre. O tesouro mais valioso da família—um broche de diamantes antigo, passado de geração em geração—desapareceu. A voz furiosa de Dona Margarita ecoou pelos corredores.
“Foi ela!”, gritou. “A empregada! É a única estranha nesta casa!”
Eu congelei. “Por favor, Dona Margarita”, murmurei, trémula. “Eu nunca…”
Mas ela não ouviu razões. Foi direita ao António, exigindo que ele agisse. Apesar das dúvidas, ele cedeu à autoridade da mãe. Eu implorei que revirassem a casa, que me dessem uma chance. Em vez disso, fui despedida na hora.
Quando a polícia chegou, os vizinhos juntaram-se à porta, cochichando enquanto eu era levada em lágrimas. Anos de serviço fiel não valeram nada.
**Sózinha e Esquecida**
Dias depois, chegou uma intimação—eu teria de comparecer ao tribunal. A notícia espalhou-se rapidamente por Lisboa. Pessoas que antes me cumprimentavam agora atravessavam a rua para me evitar. “Clara” tornou-se um nome sussurrado só em tom de escândalo.
O que mais doía não eram as fofocas—era a ausência do Tomás. Sentia falta do riso dele, das perguntas sem fim, da forma como me abraçava ao chegar da escola. Então, numa manhã cinzenta, alguém bateu suavemente à minha porta.
Quando a abri, lá estava ele.
“Clara!”, exclamou, lançando-se nos meus braços. “A avó diz que és má, mas eu não acredito. A casa está tão vazia sem ti.”
As lágrimas encheram-me os olhos enquanto o apertava. “Oh, Tomás… Também sinto a tua falta.”
Ele pôs a mão no bolso e tirou uma pequena fotografia das nossas mãos unidas. “Guardo isto. Para não te esqueceres de mim.”
O meu mundo, que parecia despedaçado e frio, voltou a ter um clarão de luz.
**O Julgamento**
No dia da audiência, vesti o meu velho uniforme de empregada—as únicas roupas limpas que me restavam. As mãos tremiam, mas o olhar permaneceu firme.
Dentro do tribunal, os murmúrios espalharam-se pela sala. Dona Margarita estava sentada, altiva, ao lado do António, sussurrando ordens ao advogado da família, o Dr. Manuel Teixeira—um dos melhores de Lisboa. Do outro lado, a minha jovem advogada, Inês, parecia nervosa mas determinada.
A acusação pintou-me como gananciosa e ingrata, acusando-me de explorar a bondade dos Ferreiras. As testemunhas repetiram o que Dona Margarita queria. O António permaneceu em silêncio, o rosto sombrio de culpa. Só o Tomás, sentado ao fundo com o preceptor, parecia destroçado.
Quando chegou a minha vez de falar, a voz saiu suave mas firme. “Nunca roubei nada. Esta família era a minha vida. Amei o filho deles como se fosse meu.”
O juiz ouviu calmamente, mas o público já me julgara no coração.
**A Verdade de uma Criança**
De repente, algo inesperado aconteceu. O Tomás levantou-se. O preceptor tentou pará-lo, mas o menino escapou e correu para a frente.
“Esperem!”, gritou. “Ela não fez nada!”
Um silêncio pesado caiu sobre todos. Os olhos voltaram-se para o pequeno rapaz de pé ao meu lado, o rosto molhado de lágrimas.
“Eu vi a avó naquela noite”, disse. “Ela tinha uma coisa brilhante nas mãos. Disse: ‘A Clara será o bode expiatório perfeito.'”
O rosto de Dona Margarita empalideceu. O juiz inclinou-se, pedindo ao Tomás que descrevesse o que vira. O menino explicou tudo—a caixa dourada, a gaveta secreta no escritório da avó, o broche escondido lá dentro. Os detalhes eram precisos demais para serem invenção.
A Inês aproveitou o momento. “Meritíssimo, peço uma busca imediata.”
O juiz concordou. Minutos depois, os agentes voltaram com a tal caixa—e envelopes de dinheiro e documentos comprometedores. A verdade era inegável.
**Justiça Feita**
As mentiras de Dona Margarita desmoronaram diante de todos. O António levantou-se, a voz trémula. “Clara”, disse baixinho, “peço-te perdão.”
O juiz declarou-me inocente. Um alívio quente invadiu-me, como o sol depois da tempestade. O Tomás correu para mim, abraçando-me com força. As câmaras dispararam enquanto ele chorava: “És o meu coração, Clara!”
O tribunal explodiu—não em escândalo, mas em aplausos. Até a imprensa chamaria isto uma vitória da verdade e do amor. Dona Margarita enfrentaria acusações, e o seu controlo sobre a família desfez-se num instante.
Saí do tribunal, finalmente livre, segurando a mão pequena do Tomás. A Inês caminhava ao meu lado, sorrindo através das lágrimas. O céu lá em cima era claro e suave.
Depois de tanta dor, consegui respirar de novo. O meu nome estava limpo. A minha dignidade, restaurada.
O Tomás olhou para mim e sussurrou: “Promete que nunca mais me deixas.”
Sorri, afastando-lhe o cabelo da testa com ternura. “Nunca, meu amor”, murmurei. “Nunca mais.”





