Leonardo Silva regressou a casa três dias mais cedo, o coração cheio de vontade de surpreender os pais. O seu carro cortou a neblina gelada de Montebranco, uma cidade de cortar a respiração, mas com um frio que mordia como dentes. O contrato fechara-se depressa demais, e a única coisa em que pensava era no sorriso do pai, naquele “força, filho” orgulhoso, e na mãe a servir-lhe um café, convencida de que a bebida curava todo o cansaço.
Trouxera o Sr. Eduardo e a Dona Margarida do México quando a sua empresa começou a voar. “Agora é a vossa vez de viver em paz,” prometera, certo de que o luxo podia pagar a dívida do amor. Naquela mansão com aquecimento, jardins impecáveis e vidros enormes, os seus pais teriam finalmente o descanso que mereciam.
Só que, ao chegar, algo não batia certo.
As luzes da sala estavam apagadas. Apenas um par de janelas no segundo andar brilhavam como olhos exaustos. Leonardo franziu a testa. Eram oito da noite, demasiado cedo para estarem todos a dormir.
Carregou no comando do portão. Este abriu-se lentamente. Estacionou na garagem quentinha. Desceu do carro com a mala na mão… e foi então que os viu.
Duas figuras humanas estavam sentadas na neve, abraçadas uma à outra nos degraus de uma entrada lateral. Por um segundo, pensou que eram sem-abrigo à procura de refúgio. Mas o coração parou-lhe quando a luz exterior iluminou um rosto que conhecia.
—Não… não pode ser! —sussurrou.
Eram os seus pais.
O Sr. Eduardo tremia, com uma t-shirt fina e um pijama, os lábios roxos. Dona Margarida usava um vestido de algodão, sem casaco, com o cabelo colado à testa pela humidade. Estavam ali fora como se os tivessem posto na rua sem lhes dar tempo para nada.
Leonardo largou a mala e correu. Escorregou um pouco, ajoelhou-se à frente deles e abraçou-os aos dois ao mesmo tempo, como se lhes pudesse dar calor apenas com o corpo.
—Pai! Mãe! O que é que estão aqui a fazer? Quem… quem é que vos pôs aqui fora?
O Sr. Eduardo levantou a cara. As lágrimas tinham-lhe congelado nas faces.
—Filho… voltaste… —a voz era um fio—. A tua mulher disse que já não podíamos ficar lá dentro.
A Leonado fervilhou o sangue.
—A Mariana? —perguntou, incrédulo. A sua mulher, elegante, sorridente, a mesma que nos jantares cumprimentava os seus pais com beijos formais—. O que é que estás a dizer, mãe?
Dona Margarida apertou o peito e soltou um choro baixinho.
—Ela disse que tinhas falado durante a viagem… que estavas cansado… que já não os querias aqui… que estávamos a atrapalhar.
A palavra “atrapalhar” partiu-lhe a alma.
—Isso é mentira! Eu nunca diria tal coisa!
Tentou abrir a porta da frente. Não cedeu. Bateu. Carregou na campaínha. Nada. Procurou a chave. Não entrava.
A fechadura… tinha sido mudada.
Ergueu os olhos para a janela do quarto principal. Uma silhueta desenhou-se por detrás da cortina. Mariana estava lá, a observar a cena como quem vê um filme alheio.
—Mariana! —gritou Leonardo—. Abre-me a porta, agora!
Ligou-lhe para o telemóvel. Ouviu o toque… lá dentro de casa. Ela não atendeu.
A neve começou a cair com mais força. O Sr. Eduardo tossia, seco. Dona Margarida já não conseguia parar de tremer.
Leonardo não pensou. Correu para a parte de trás da casa, onde se lembrava de uma janelinha da cave que por vezes ficava mal fechada. Meteu as mãos, entorpecidas, forçou a moldura… e entrou.
Lá dentro, a casa estava quente e perfumada, como uma troça.
Subiu as escadas a correr e bateu à porta do quarto.
—Abre! Agora!
Do outro lado, Mariana falou com uma calma que dava medo.
—Voltaste cedo de mais, Leo.
—Os meus pais estão lá fora na neve! Que tipo de pessoa faz isso?
—Eles estão bem. Não é como se fosse para sempre.
Essa frase gelou-lhe o coração mais do que o inverno.
—Eles podiam ter morrido!
A porta abriu-se o espaço de uma mão, com a correntinha posta. Mariana apareceu impecável: maquilhagem perfeita, roupão de seda, olhar frio.
—Precisas de perceber uma coisa —disse—. Os teus pais não podem viver aqui para sempre.
—São os meus pais.
—E eu não assinei um contrato para ser cuidadora de idosos —cuspiu ela, sem pestanejar—. Se queres fazer de filho perfeito, faz… mas não é na minha casa.
Leonardo sentiu um murro no estômago.
—A *tua* casa? Esta casa fui eu que a comprei.
Mariana sorriu, torto.
—Já vamos ver.
Leonardo desceu sem dizer mais. Abriu a porta principal por dentro e levou os seus pais para fora do frio como quem resgata um tesouro de um incêndio. Sentou-os no sofá, trouxe-lhes cobertores, preparou-lhes chá. Ficou de vigia a noite toda, a ouvir a respiração deles, sentindo-se culpado por não ter visto os sinais.
Às seis da manhã ouviu passos. Mariana desceu com uma mala como se fosse um dia normal.
—Precisamos de falar —disse Leonardo, bloqueando-lhe a passagem.
—Não tenho nada para falar —respondeu ela—. Já escolheste.
—Escolhi salvar os meus pais.
—Então liga quando decidires o que te importa mais: se eles, se eu.
E foi-se embora, deixando a porta fechar-se com um estrondo que pareceu um tiro.
O Sr. Eduardo, já acordado, sentou-se com esforço.
—Filho… isto… não foi a primeira vez —confessou, com vergonha.
Leonardo fitou-o.
—Como assim não?
—Há semanas que ela nos dizia que gastávamos muito, que tu estavas cansado… e que uma “ajudante” vinha ver-nos.
—Ajudante? Que ajudante?
Dona Margarida mordeu o lábio.
—Uma rapariga… chama-se Alexandra. A Mariana disse que tu a tinhas contratado.
Leonardo sentiu que algo encaixava… mas como um puzzle sinistro.
Aquele dia era terça-feira. Se a Alexandra vinha “todas as terças”, apareceria em breve.
Leonardo não esperou só pela Alexandra. Revistou também o seu escritório. Abriu gavetas. Encontrou papéis fora do lugar. Uma pasta azul, escondida atrás das escrituras. Abriu-a… e ficou sem ar.
Formulários de uma residência privada: “Anos Dourados”. Nomes dos seus pais já preenchidos. Assinaturas da Mariana como responsável legal. Diagnósticos impressos: “demência senil”, “risco”, “agressividade”.
Tudo falso.
E no fundo… uma cópia de uma certidão de óbito com o seu nome.
Leonardo agarrou-se à secretária para não cair.
Não era ódio improvisado. Era um plano.
Quando a campainha tocou, o seu coração já batia como um tambor.
Abriu a porta com um sorriso duro.
Alexandra entrou com uma pasta debaixo do braço, trinta e tal anos, cabelo castanho, sotaque estrangeiro.
—Bom dia. Sou a Alexandra, a assistente que cuida dos seus pais. A Mariana não está?
—Saiu cedo —mentiu Leonardo—Só então Leonardo percebeu que a voz de Alexandra era estranhamente familiar, a mesma que ouvira numa gravação do telemóvel da mulher, planificando o seu próprio desaparecimento.





